11 de ago. de 2009

A Expo Shanghai 2010 pode, é?

Eu juro que me irrito com isso. A censura na internet é uma das mais burras e irritantes aqui. Por mais que bloqueie, se caiu na rede já era, não tem como tirar. Se o site é bloqueado, beleza, não finge que não é, ou que não sabe do que tá falando.

Não é a primeira matéria que a Xinhua, ilustríssima agência de notícias do governo chinês, divulga com análises de sites que são bloqueados no país. Sim, falar que o Facebook não ganhou espaço entre os internautas chineses em um ano sem mencionar que a rede social é bloqueada dentro do território chinês é, no mínimo, amadorismo.

E aí que no ano que vem Shanghai vai receber a ExpoMundial e o governo está botando a maior fé (e grana) no evento, que além de prestígio pode trazer boas oportunidades de negócios e investimentos. Evento grande, internacional. Nada melhor que usar duas das maiores redes sociais do mundo para divulgar o evento: Facebook e Twitter. Coincidentemente, duas das redes sociais devidamente censuradas na internet chinesa. Lá fora o povo pode ver, seguir, adicionar, comentar. Aqui, não.

Eu concordo, em parte, com o que argumenta a Jana nesse texto. O umbiguismo nesse mundo online, que já concentra o maior número de usuários do mundo e que tem um belíssimo espaço para expansão, é comum aqui, mas não descarta a culpa (e a necessidade) do governo chinês em controlar a informação que trafega na rede chinesa. Afinal, como dá para ver no levantamento do Web 2.0, não só a China tem ferramentas desenvolvidas no próprio país que acabaram mais popularizadas, mas Coreia do Sul e Japão também. Acho que todo mundo tem espaço aqui, até mesmo os sites estrangeiros se começarem, por exemplo, a falar, literamente, a mesma língua dos chineses. E claro, se o governo liberar o acesso também ajuda bastante.

Mas "noves fora", como diz uma amiga, como a assessoria da Expo Shanghai atualiza o perfil do Facebook e Twitter? Proxy? Assim pode, é? Bom saber...

10 de ago. de 2009

Urumqi, um mês atrás

Há pouco mais de um mês, a violência tomou conta de Urumqi, capital de Xinjiang. As ruas da cidade viraram palco de um sangrento conflito étnico. Até agora, ninguém soube explicar com clareza como uma manifestação pacífica terminou com a morte de 197 pessoas. A cidade ficou dividida entre os chineses da etnia Han e os Uigures, que apesar de serem maioria na província, estão em bem menor número na capital. Todas as comunicações foram cortadas, e a maioria não foi retomada até hoje. O governo rapidamente arrumou um culpado, ou melhor, uma culpada, Rebiya Kadeer, dissidente uigur que vive desde 2005 nos Estados Unidos.

O governo chinês sustenta que a maioria dos mortos é de origem han, a maioria étnica da China. Rebiya fala que mais de 10 mil uigures teriam desaparecido em uma só noite e que o governo chinês os estaria prendendo, e matando, sem divulgar.

A mídia chinesa, em chinês, faz questão de afirmar é que preciso manter o controle na região e que agora está tudo bem, os culpados estariam presos e serão julgados em breve. Pelo que já conversei por aqui, o povo está acreditando que agora não mais nada com o que se preocupar.

Muito já foi dito e escrito desde que a explosão de violência ocorreu.
Mas hoje o que eu quero é contar um pouco do que eu vi indo para lá.

No dia 10 de julho, apenas cinco dias depois do conflito, pegamos um avião rumo à Urumqi. Fomos encontrar com amigos jornalistas que estavam lá para ver o que estava acontecendo.

Tentar embarcar para uma região de conflito na China tem tudo para ser complicado, por isso achamos que poderiam nos impedir, ou pedir para checar as informações dos nossos passaportes, tentando ver de onde (e porquê) vem nosso visto. Mas não, foi muito mais tranquilo do que eu imaginei. Diferente do Tibet, não é necessária nenhuma autorização especial para ir à Região Autonôma Uigur de Xinjiang. No aeroporto, o voo marcado para as 21h40 havia sido adiantado para as 21h. Nunca vi, ou ouvi falar, de voo que foi adiantado, era no mínimo estranho. Mas logo depois descobrimos que o voo anterior não tinha saído e eles resolveram colocar todo mundo no mesmo. Ainda bem que não estávamos atrasadas.

No voo já é possível ver as diferenças: muitas mulheres usando véus, cobrindo a cabeça e algumas até o rosto, os olhos arrendondados, a cor da pele diferente. No avião conheci um senhor cazaque, que estava com a família indo para Urumqi. Ele achou o que tinha acontecido um domingo antes muito triste, mas disse que precisava ir para lá. Apesar de tudo, a coisa mais curiosa que ouvi dele foi a escalação completa da seleção brasileira de futebol da década de 70. Meu amigo cazaque gostou de saber que eu era brasileira e tentou impressionar. No final, fora isso, antes mesmo de embarcarmos, ele me disse: a cidade é boa, mas tome cuidado.

No caminho até o hotel a impressão era de que estávamos em uma cidade fantasma. Não havia gente na rua, nem carros circulando. Além de nós, só a polícia quebrava a falta de movimentação.

Fomos ao hotel onde era o QG dos jornalistas que foram cobrir o conflito. Internet, só em uma sala e via cabo. Ninguém parecia muito contente com a velocidade da transmissão de dados. Todos estavam bastante cansados. A sexta-feira havia sido particularmente movimentada, pois o governo tinha ordenado o fechamento das mesquitas e os muçulmanos começaram a se aglomerar na frente dos prédios para fazer as preces. Deu confusão, enfrentamento com a polícia, até que finalmente autorizaram a entrada em uma delas. Claro, na versão oficial, a mídia chinesa não falou nada sobre confusão, mas que as pessoas “não foram às mesquistas porque preferiram fazer as preces de casa”. Ahan, sei. A jornalistada que estava lá também sabia e corria para tentar enviar o que desse sobre o assunto. O máximo de forças foi para experimentar a Sinkiang, cerveja preta local.

A primeira coisa que vi ao sair na porta do hotel no sábado de manhã, que ficava em frente à Praça do Povo, local onde uma semana antes começou a manifestação pacífica de um grupo uigur, foi um senhor idoso discutindo com um soldado que fazia o isolamento da praça, indignado por não poder usar a calçada, que fazia parte da área isolada. Fora o forte policiamento naquele sábado, a vida parecia estar voltando ao normal na capital, as pessoas esperavam ônibus, a lojas estavam abertas e comportamentos vistos na semana, como chineses han saindo na rua armados com paus com medo de ataques, não pareciam se repetir. Entretanto, o ambiente também não era de tranquilidade.

Resolvemos ir ao bairro uigur. A entrada da Hepinnanlu, uma das principais ruas do bairro, estava fechada. Em cada esquina, dois ou três soldados distribuíam panfletos escritos em chinês e uigur, que usa o alfabeto árabe, pedindo paz entre as etnias. Carros de som transitavam pela cidade, também com mensagens nos dois idiomas, pedindo harmonia entre as etnias. A sociedade harmoniosa, sempre ela. Apesar de não ter muita gente na rua, os restaurantes e lojas estavam abertos e víamos tanto hans, quanto uigures e huis (etnia chinesa muçulmana, diferente dos uigures). Quando estávamos nos aproximando mais da parte mais uigur do bairro, uma senhora han nos parou e disse para não irmos para lá, porque era muito perigoso. Ela não acreditou quando ignoramos o conselho.

A arquitetura dos prédios é bem diferente do padrão “caixote comunista” que vemos em Beijing. O colorido das roupas, dos véus, das sacadas é encantador. E ao contrário do que advertiu a chinesa antes, não sentimos medo, ou ameaçados em nenhum momento. Nos mercados de rua as pessoas sorriam para as fotos e tentavam conversar. No resto da China, quando vê algum estrangeiro, o chinês tenta falar inglês, pensando que este é o idioma em que poderá ser compreendido. Em Urumqi, depois de ver que não falávamos uigur, a primeira reação era tentar falar o mandarim padrão conosco, o que foi bem curioso.

No mercado, as especialidades do lugar: muito melão, kaobaozi e churrasquinho de carne de ovelha. Tudo feito e vendido ali na rua, com verdadeiros açougues a céu aberto. Entramos em uma parte que parecia muito com os hutongs aqui de Beijing, porém com características muçulmanas. Lá sim, se vendia de tudo, de caneta a sapato usado, em banquinhas no chão das ruas estreitas. As lojas com eletrônicos ofereciam televisões preto e branco de 14 polegadas. O bairro uigur, onde estão as maiores mesquitas e concentração de pessoas da etnia, é bem pobre. Em alguns momentos me senti que tinha ido parar dentro das imagens de Kabul pós-guerra, as mulheres cobertas, muita pobreza e muita sujeira, o chão das casas de uma parte onde passamos, que eram meio casas meio comércio, era batido, sem nenhum tipo de revestimento.

Dentro deste labirinto, principalmente, vimos muitas crianças, muito mais do que se vê normalmente nas cidades grandes. Como pertencem a uma minoria étnica, os uigures, bem como as outras 54 minorias, são autorizados pela lei a ter o segundo filho. Crianças morenas, olhos redondos, puxados, azuis, verdes, castanhos, cabelos ruivos, loiros, pretos. Apesar da pobreza, todas sorriam e brincavam, se divertiam no seu mundinho.

Saindo desse mundo, voltando às avenidas, a tranquilidade é um pouco abandonada. A polícia já está por todos os lados e não gosta muito de ver ninguém tirando fotos. Devido à situação precária, o melhor é obedecer. E andar para o outro lado. Fomos ao Bazar Internacional de Urumqi, ponto de comércio tradicional no bairro, onde era possível ver algumas marcas do conflito, como as janelas das lojas e portas quebradas. Os nossos amigos, mesmo tendo chegado no local no meio da semana, não viram os ônibus e carros incendiados, que apareciam nas fotos da mídia chinesa. O governo foi rápido em promover a limpeza. As lojas fechadas, o exército no pátio do bazar e algumas janelas quebradas foi o máximo que vimos da violência que havia eclodido no domingo anterior.

Apesar do ambiente amistoso, sabíamos que estávamos longe de ser presenciando uma situação normal. Não haviam chineses han na rua. Como aquela senhora que nos advertiu no início, os outros também estavam com medo e deviam achar perigoso demais se aventurar por lá. Os nossos amigos visitaram os hospitais que estavam atendendo os feridos do conflito. As cenas, descreveram, eram chocantes. Pessoas completamente desfiguradas, cujo único pecado naquele momento era estar no lugar errado, na hora errada.

Já em Beijing, duas semanas depois de voltar de Urumqi, encontramos um cara uigur. Começamos a conversar, e a falar inclusive sobre o conflito e as ações tomadas pelo governo chinês. Ao escutar que éramos jornalistas, o rosto dele mudou. O olhar era de pânico, medo. Ele tinha medo que usássemos o nome ou qualquer outra referência sobre ele. Pessoas da família desse cara haviam sido presas, mesmo clamando inocência. Amigos estavam sumindo. Segundo o cara, todos os uigures correm risco e os que comentarem o assunto, mais ainda. Exatamente o que clamou Rebiya Kadeer na entrevista concedida quando ela esteve no Japão no final do mês de julho.

Para finalizar, deixo vocês com dois vídeos gravados no período em que eu estive lá e mostram um pouco do que eu vi e desse sentimento de que, no fim das contas, nada parece justo:

Tensão étnica em Xinjiang from niels dartabad on Vimeo.






Tranquilidade vigiada from Janaína Camara da Silveira on Vimeo.







Um pouco do que andaram escrevendo por aí

- Uma história com vítimas dos lados:

- Mais acusações da família de Rebiya

- Governo confirma a morte de 12 pessoas envolvidas no conflito

- Jackie Chan estava certo quando disse que os chineses precisam ser controlados?

- Notícia sobre o suposto estupro em Guangdong, motivo da manifestação que acontecia na Praça do Povo no dia conflito

- Artigo do Wall Street Journal sobre os protestos

- O New York Times criou um espaço de debate qualificado sobre o assunto

Urumqi, um mês atrás - Fotos



















9 de ago. de 2009

Só esperando você?

Só eu, ou mais alguém também acha que a Gisele não tem nem ideia de que participou desta campanha publicitária deste shopping/site de compras chinês?

7 de ago. de 2009

O Super Baozi

Um animação virou a sensação da semana aqui na China. Um novo super-herói entrou em ação: o Super Baozi!
Brincadeiras à parte, o vídeo está muito legal. O trabalho de Sun Haipeng é muito bom. Confere aí:

Falanod nisso... logo na chegada na China já me apresentaram os baozis 包子. Juro que nunca tinha comido. E de cara não gostei muito da cara da massa do pão, que é bem, bem pálida. Mas por aqui os baozis são um sucesso, você encontra em cada esquina para vender e é bem baratinho.

Eu não sou lá muito cozinheira, se algum leitor do blog quiser se aventurar nos sabores chineses, vai aí a receita:

Massa:
150g de farinha de trigo para pão
150g de farinha de trigo comum
3g de fermento para pão
4g de fermento em pó para bolo
2g de sal
20g de açúcar
15g de manteiga sem sal em temperatura ambiente
160ml de água, que deve ser adicionada aos poucos, com o cuidado para não deixar a massa muito mole

Modo de preparo:
Primeiro peneire as farinhas com o fermento. Junte os demais ingredientes até que formar uma massa uniforme. Despeje o conteúdo na mesa e sove até ficar lisa e elástica
Cubra com filme plástico e deixe descansando por 20 minutos. Prepare o recheio.

Aqui vai uma sugestãozinha. Eu gosto bastante dos recheios de carne, então... voi la!

250g de carne de porco moída
70g de espinafre picadinho
1 pedaço de gengibre de 3cm ralado
1/2 cebolinha branca ou 1/2 cebola picadinha
1 colher (sopa) de óleo de gergelim
uma pitada de sal
1/2 colher (sopa) de molho de soja
uma pitada de pimenta e outros temperos a gosto

Misture todos os ingredientes e divida em porções. Enrole como se fosse uma almôndega para facilitar na hora de preencher no pão.

Depois dos 20 minutos de descanso pegue a massa e divida em dez porções. Faça bolinhas e deixe descansando por 10 minutos cobertos com um pano de prato úmido, bem torcido. Unte a mesa com farinha. Abra as bolinhas na mesa com um rolo até ficar com 12cm de diâmetro. Coloque o recheio no centro e feche puxando um pouquinho da massa para cima. Vá pegando uma porção da massa ao lado e puxando como se fossem pétalas. No final, dê uma leve torcidinha e coloque sobre um pedaço de papel manteiga cortado.
Faça o mesmo com as demais bolinhas. Cubra com pano e deixe fermentar novamente em lugar abafado por 20 minutos.

Coloque água numa grande panela para banho-maria e leve ao fogo. Quando terminar o descanso da massa, ajeite os bolinhos sobre a grade da panela, deixando um espaço entre eles porque crescem durante o cozimento.
Se você tiver as panelas chinesas próprias para cozimento à vapor feitas com bambu, é só tampar e deixar 10 minutos. Se você usar uma panela comum, envolva a tampa com pano de prato para que água acumulada não caia em cima dos bolinhos. Depois é só tampar e deixar cozinhar por 10 minutos.
Sirva quentinho!

Se alguém tentar, me escreve para contar se deu certo, tá?

China Mobile, você conhece?

Estava eu navegando no Meio Bit e vi o post sobre a pesquisa anual realizada pela Millward Brown Optimor, que foi divulgada agora, com o ranking das 100 marcas mais valiosas do mundo.

Tudo bem, pode ser desantenamento meu, mas me surpreendeu encontrar a China Mobile em primeiro lugar entre as empresas de telefonia, com a marca avaliada em mais de US$ 61 bilhões.

Aqui na China, esta é a minha companhia, cujo nome em chinês eu sempre esqueço na hora de comprar um cartão telefônico. Pois, depois disto que descobri que a China Mobile Communications Corporation, ou 中国移动通信 Zhōngguó Yídòng Tōngxìn, é a maior empresa de telecomunicações do mundo, com mais de 450 milhões de clientes. Compreensível, já que é uma estatal chinesa e tem uma fatia de 67% do mercado do país. E você lembra que este é um país de mais de 1,3 bilhão de habitantes, né? Claro, o domínio da China Mobile é chinês, mas em 2008 a empresa adquiriu a Paktel, do Paquistão, por $460 milhões segundo o Financial Times.

Não sei vocês, mas pra mim este é mais um sinal claro do espaço que a China conquista na economia. Nesse caso, não só como grande chão de fábrica do mundo, mas agora de maneira qualificada, afinal a valorização da marca agrega um valor competitivo inestimável às empresas.

Um perfilzinho da China Mobile:

China Mobile Communications Corp.
http://www.chinamobile.com/en
Fundação: 1997
Empresa Estatal
Presidente: Wang Jianzhou
Rendimento: US$33.60 billion (2007)
Cotação: Bolsas de Hong Kong e Nova York
Negócio: Telecomunicações, telefonia móvel, internet, 3G
Número de empregados: 119 mil (2007)
Subsidiárias: China Tietong e Paktel (do Paquistão)

5 de ago. de 2009

Um site para entender o que eles tão pensando (ou pelo menos vendo na rede)

囧囧!Este caractere é quase autoexplicativo: surpresa, espanto! É com ele que o site chinaSMACK se apresenta e que define bem o seu próprio objetivo, que é decifrar, com bom humor, o que espanta e supreende os internautas chineses, que os faz comentar e espalhar por aí, para o público que não fala mandarim. O chinaSMACK completou um ano em julho deste ano e arrebata acessos entre os estrangeiros que moram dentro e fora da China, mostrando um pouco do que o internauta chinês está falando, vendo ou compartilhando na web.

Mesmo não dando espaço para conteúdo político, Fauna, criadora do site, prefere se preservar e não falar muito sobre ela mesma. Uma das fortes críticas que ela sofre de outros chineses é que mostrando o que acontece, ela faz com que o povo da China "perca a face" diante dos estrangeiros. "Perder a face", ou mianzi 面子, é um conceito extremamente chinês, herança confucionista muito presente na cultura e nas relações que, resumindo bastante, é o cuidado extremo com a reputação, familiar e pessoal, que deve ser mantida a qualquer custo. Por isso esta chinesinha de Shanghai prefere não dar referências sobre ela, para que a vida offline não sofra os ataques em mandarim que ela sobre online. "É só para me preservar um pouco. Tento evitar ao máximo as pessoas que fazem este tipo de crítica. É ridículo", diz ela, sem perder nem a face, nem o bom humor.

No início ela achava que dividir em inglês o que se comentava em chinês seria uma maneira bacana de praticar o idioma. Um ano depois, ela comemora as mais de 270 mil visitas por mês e os quase 4 mil assinantes. "Isto mostra que começamos do zero para nos tornarmos um conhecido site em inglês sobre a China", conclui. A maior parte do público do site acessa, em primeiro lugar, dos Estados Unidos, seguido por China, Canadá, Reino Unido e Cingapura. Mas mesmo o Brasil aparece nesta lista, junto com dezenas de outros países.

Mas vamos falar sobre o site, que é bem legal. O chinaSMACK não se limita a simplesmente traduzir histórias que estão sendo vistas e discutidas pelos chineses. A Fauna se puxa e publica também comentários dos internautas chineses sobre o assunto, pra que os leitores tenham uma ideia melhor de como os internautas daqui pensam e reagem. "Isso ajuda os estrangeiros a compreender uma parte da China. Dá para ver que tem diferenças, mas sociedade moderna chinesa e os estrangeiros são mais iguais do que diferentes", opina.

As semelhanças são perceptíveis. Nos vídeos "virais", fotos que se espalham rapidamente, dá para ver que, afinal, os gostos não são mesmo diferentes. Nem quando o assunto é sério. Mesmo tentando não colocar conteúdo diretamente político ou que pise nos calos do governo, através dos comentários traduzidos dá para perceber a ironia e a indignação com a censura na rede. Quem pensa que o povo chinês é simplesmente "cordeirinho" do governo ou aceita tudo sem contestar, consegue mudar de ideia quando lê as brincadeiras sobre a "sociedade harmoniosa". Mesmo que não haja um movimento organizado, o descontentamento está ali expresso, nem que seja nas entrelinhas.



Outra coisa bacana é o glossário, que também dá uma mão para aproximar chineses e estrangeiros. Lá a Fauna reuniu termos, expressões, siglas e gírias que são usadas pelos internautas chineses. Com isso, dá para compreender melhor, ver o que é engraço ou ofensivo no mandarim utilizado na internet. Quem está aqui na China, tem a vida offline também facilitada, já que muito da linguagem oral, principalmente mais jovem, está bem distante dos dicionários.


O projeto para este ano é crescer. A Fauna, mesmo com outro emprego, dispõe de três a seis horas por dia traduzindo notícias, vídeos, comentários e atualizando o chinaSMACK. "Seria ótimo ter mais colaboradores. O ideal seria poder pagar as pessoas para fazer isto, mas o site não gera muita renda", conta ela. Por enquanto não tem mais nenhum colaborador fixo, mas ela já contou com a ajuda de outros chineses e de estrangeiros com grande conhecimento de mandarim. Se alguém aí quiser colaborar, ou conhece alguém que queira, escreve para a Fauna. A única coisa que ela pede é que sempre sejam incluídos os comentários dos internautas chineses sobre o assunto, que é uma parte importante do trabalho do site.

Jiong Jiong!
囧囧 Este caractere supersimples não andava mais nem sendo usado na China. Com a popularização da internet, ele voltou renovado e caiu no gosto dos internautas, que começaram a ver nele praticamente um emoticon para expressar admiração. "囧囧 representa bem o chinaSMACK. E é engraçadinho", completa Fauna com bom humor.