4 de ago. de 2009

In the mood for China

-5ºC na rua. Um nevoeiro que não dava para ver nada. Caracteres por toda a parte. Completamente analfabeta. Cansaço. Ansiedade. Foi assim que eu cheguei na China.

Eu não lembro de escutar ninguém falando chinês no voo, não lembro de ter a opção no cardápio de comida chinesa. Lembro da paisagem montanhosa três horas antes de aterrissar, lembro de ver os primeiros caracteres no formulário de entrada no país. Não lembro da fila na imigração, não lembro do tempo que esperei a bagagem. Lembro que tinha abraço me esperando e plaquinha com o meu nome.

A partir daí, tudo é novidade. Morar em outro país é sempre uma experiência maravilhosa, até mesmo quando é ruim. Morar na China, é uma experiência única, distante de todos os sonhos mais populares. Não é um país de primeiro mundo. Não é um país democrático. Não tem um idioma que você vai aprender a ler quase naturalmente. Não é um destino popular onde você vai ter momentos em que vai estar tão rodeado de outros brasileiros que vai sentir, por um momento, que nem saiu do Brasil.

Quando eu cheguei aqui não sabia bem o que esperar. O gigante asiático nem parecia tão grande assim só olhando no atlas. A evolução, o crescimento econômico, a conquista do direito de sediar uma olimpíada, a pujança nunca esteve exatamente no meu imaginário. As roupinhas iguais do tempo da Revolução Cultural, o idioma incompreensível, a censura, o comunismo, o massacre na praça, o trabalho infantil e a conta da bala para a família em caso de pena de morte faziam mais parte da minha imaginação. Eu realmente não sabia o que era esse lugar onde vim parar.

Com as novidades saltando aos olhos, o que mais se quer é descobrir. A adaptação no inverno pode ser mais complicada. O cinza ainda comum nos prédios e muros de Beijing parecem ainda mais sombrios no inverno. O clima seco corta, castiga, bem como a saudade. Mas era um período de adaptação e o que mais se quer é se sentir feliz, ou, pelo menos, adaptado. Começa o período das buscas, do conhecer o lugar, das muitas leituras. Como eu podia saber tão pouco dessa história? Como pode o resto do mundo todo pensar isso?

Para se adaptar é necessário se integrar e essa tarefa nessa sociedade milenar parece ao mesmo tempo fácil e impossível com o passar dos dias. O povo chinês sorri muito, sorri os dentes que não tem, sorri com o cigarro no canto da boca, sorri depois que cospe. Aqui é o único lugar em que o sorriso amarelo é bom, faz a gente se sentir bem-vindo, querido, estimado. As primeiras palavras ditas em mandarim são sempre alvo de elogios por parte dos chineses. Talvez eles tenham ideia de como é difícil aprender a pronunciar todos aqueles fonemas absurdos e façam isso para dar uma forcinha. Aí você pensa: “consegui me adaptar”.

As novidades não estão apenas nas cores novas, na nova escrita, no novo idioma ou no novo povo. As novidades culinárias são, muitas vezes, as mais torturantes para um estrangeiro na China. A lógica da comida e das refeições são diferentes das nossas, tudo tem um porquê, tudo vai equilibrar algo no funcionamento pleno do organismo, o excesso de óleo, pimenta, arroz, e até a falta de sabor de alguns pratos tem uma razão. Depois de não passar com trabalho com isso, você pensa: “consegui me adaptar”.

Com o tempo, a saudade doída é abrandada e você acaba algumas vezes conversando mais com as pessoas do que quando estava ao lado delas. Quanto o mais o tempo passa, mais diminui o número de pessoas que você queria ali, do seu lado mesmo. Muitos amigos, conhecidos, acabam na lembrança nostálgica, a saudade gostosa. Não dói, você não precisa ter perto, mas é bom lembrar e ter histórias pra contar. Quando isso acontece, você pensa: "consegui me adaptar".

Todos aqueles estereótipos que a gente traz na mala quando vem para na China, vão cansando com o tempo. A primeira vez que se visita o Brasil depois de mudar pra cá é de enlouquecer. "Como é morar na China?", "Como tu te vira com a comida?", "O que tu come?" " Já comeu grilo, gafanhoto, bicho-da-seda?", "Já fala, lê e escreve chinês fluente?", "Eles têm mesmo pinto pequeno?" são perguntas que a gente escuta 89.271.023.237.783.642 vezes. São só essas as curiosidades? Só isso que foi transmitido e retransmitido durante a Olimpíada, único momento em que a mídia brasileira realmente deu bola pra China? O pior é ver brasileiro falando com desdém, como se aqui fosse um lugar pré-histórico, perdido no tempo e rodeado só de pobreza. Ou como se o comunismo estivesse presente em tudo, pintando a China de 2009 como o que era na década de 70, ou como o que é a Coreia do Norte. Brasileiro que não vê o próprio Brasil, as próprias misérias. Cansa.

Com o tempo o que também vem são os amigos. Amigos que vivenciam todas as mudanças pelas quais a gente passa, amigos que são parte deste povo novo que a gente tenta entender. A gente acha que é aceito pelos chineses. A gente até acredita que criou amizades com a mesma profundidade que tem o nosso próprio povo. É, com o tempo vê que isso é só ilusão. Apesar da simpatia, do carinho, da dificuldade em dizer não, um chinês nunca vai conseguir ser tão amigo, tão irmão. E é o momento em que a gente percebe que só adaptação não basta. A diferença cultural vai, em algum momento, criar uma barreira. Você sempre será o laowai, o estrangeiro. Mesmo nascendo aqui, crescendo aqui, falando, lendo e escrevendo chinês. Mesmo que este seja o único país que você entenda como lar, isso sempre existirá. Ruim? Diferente.

A lógica (ou a falta de) chinesa tem dias que te deixa de cabelo em pé. A censura faz com que duas vezes por semana, pelo menos, você queira ir embora. Trabalhar e conviver com chineses muitas vezes faz com que a sua paciência seja testada ao limite máximo. Aqui tem jeitinho. Aqui la garantia soy yo. Aqui as relações são na base do guanxi (e do baijiu). Aqui a cerveja é quente. Aqui eles tomam sopa no café da manhã. Aqui tem gente com medo de estrangeiro. Aqui às vezes a gente se sente no meio de uma piada de português. Aqui o povo não vê diferença entre o governo, o país e o povo. Aqui os estrangeiros também cansam, com seus preconceitos contra o povo que os recebe. Mas pergunta se a gente quer ir embora?

O viés enlouquecedor é inversamente proporcional ao encantador. Não só pelo povo. Não só pelas belezas naturais. A China tem uma mágica, um feitiço. Quem vem pra cá acaba vivendo uma relação de amor e ódio, como a mais avassaladora das paixões.Essa é mais uma das coisas que não lógica. Eu não sei se posso encher a boca para dizer que sei o que é este país. Eu continuo achando atrevimento quem diz que sabe e começa a ditar regras, como se fosse possível enquadrar 1,3 bilhão de pessoas. Tem dias que eu quero ir embora, porém agora, no momento em que eu estou pensando e me preparando para isso, vejo o quanto aprendi e o quanto continuo com vontade de China. Talvez agora você não entenda, mas se um dia passar por aqui e se abrir, um pouquinho que seja, com certeza vai entender.

16 de jul. de 2009

9 de jul. de 2009

Mais um conflito que está na rede

A essas alturas do campeonato todo mundo está sabendo o que está rolando em Xinjiang, região autônoma no noroeste da China. Os confrontos, o conflito étnico, as mortes, os feridos, o exército na rua, o toque de recolher. Apesar do Brasil estar dando pouca bola para o assunto, os dois correspondentes de jornais brasileiros, da Folha e do Estadão, estão lá reportando o que acontece para o público tupiniquim. Claro que sempre é diferente a maneira que duas pessoas contam a mesma história, mas é fundamental que a história seja contada.

A maneira mais rápida de acompanhar tudo é a internet, claro, mas especialmente pela ferramenta da moda, o Twitter. Mesmo com todos os bloqueios na rede (estamos com uma dezena de sites barrados de novo pela "Great Firewall") quem está lá está dando um jeito de se comunicar. Pra variar, quem está fora de Xinjiang, mas na China, também. Afinal, se não fosse isso eu não estaria escrevendo este post. Para quem lê em inglês tem material legal saindo. Se você quiser ficar por dentro, acompanhe a @melissakchan, correspondente da Al Jazeera que tem disponibilizado informações bacanas e vídoes no Youtube, e o @MalcomMoore, correspondente do Daily Telegraph. Acompanhe também o @mranti, jornalista independente que já foi correspondente de jornais americanos e teve o blog deletado na China por causa do conteúdo. Tem também o @shanghaiist, que está atualizando com matérias e análises exclusivas. Claro, você ainda pode seguir as garotas que comem de palitinho, Jana Jan e Dona Coruja, pois também estamos atualizando com o que vemos sobre o assunto.

Os grandes jornais do mundo todo também estão lá e gerando muito material. Achei interessante a iniciativa do New York Times de fazer um espaço de debate qualificado sobre o assunto. Tá aqui no site deles. Para ter acesso às matérias completas é necessário fazer um cadastro no site, que é gratuito. Tem os correspondentes da Time e da CNN, do The Economist e Wall Street Journal, ABC, da Espanha, só para citar alguns.

Outro site onde você pode acompanhar é o Danwei, que sempre traz as principais notícias dos jornais chineses e artigos sobre comunicação no país. Claro que o site está acompanhando o que acontece em Xinjiang, especialmente porque esta já é classificada como a cobertura jornalística onde a imprensa internacional teve mais liberdade para atuar. Não que eu ache que o governo está divulgando tudo porque ficou bonzinho ou se conscientizou do papel da imprensa livre na sociedade (sic). Falando no governo, sempre dá pra acompanhar a mídia chinesa. Diário do Povo, Xinhua, China Daily, Rádio Internacional da China e CCTV estão cobrindo o conflito e transmitem em inglês.

Depois de ler tudo isso você deve estar se perguntando: tá, mas o que tu acha de tudo isso?? Gente, só tenho dizer que acho triste, lamentável, preocupante. Eu não consigo entender rivalidade entre dois povos que ultrapasse os limites dos portões de um estádio de futebol. Amanhã a gente fala mais nisso.

O significado (ou a falta de ) das palavras

Sempre depois de uma aula de chinês a minha cabeça sai fritando. Um pouco porque fazia muito tempo que eu não estudava chinês, um pouco porque é uma professora particular nova (e eu tenho meus bloqueios, preciso me sentir confortável com a pessoa pra sair cometendo erros sem surtar), um pouco porque eu preciso falar (posso passar horas estudando caracteres faceira, odeio abrir a boca) e muito porque é um idioma difícil pra chuchu.

Mesmo assim eu curto bastante quando estou estudando. Curto a lógica (ou a falta de) do idioma. Algumas vezes é uma lógica ingênua, quase infantil, e por isso fofinha. Well, outras vezes é de pensar “what the fuck?”, mas em geral é fofo. Fora quando fica até meio poético. Olha só.

Amor é ai, que se escreve 爱 hoje em dia. Em chinês tradicional (e também japonês) se escreve 愛. Ou seja, tiraram uma parte do caractere para simplificar a escrita. Até aí, sem problema. O amigo está dentro do amor, pois uma das partes que o compõem é 友, que significa amigo. Então que no amor precisa amizade. Mas daí algo aconteceu, não sei se foram as guerras, se foi o comunismo, mas quando simplificaram a escrita tiraram o coração do amor. Como? Aqui neste愛 dá pra ver uma partezinha espremida, 心, que significa coração. Triste, mas na China de hoje o amor é sem coração. Ainda falando de amor, ou melhor do爱, uma das palavras que eu mais gosto é marido-esposa (serve para os dois), que é airen 爱人. Te ligou que o amor está entre os cônjuges, não? O outro caractere que forma a palavra é ren 人, que significa pessoa. Pessoa amada. Fofíssimo, não? Se tem uma coisa que eu me surpreendi aqui, e ainda me surpreende, é a quantidade de casais que briga na rua. Quando eu falo briga não me refiro a bate boca, é porrada mesmo. O cara bate na mulher e a mulher bate no cara em qualquer lugar: na rua, no shopping, no bar, na frente do trabalho. Acho que o problema todo com a chinesada é que tiraram o coração do amor. Só pode.

Falando em coração (esse心 coração) me lembrei de outro. “Você” em chinês é 你, ni. Pois a forma respeitosa de dizer você é 您, nin. Reparou que ali embaixo tem o caractere de coração?Então se você chama alguém com respeito, chama com o coração.

Outra coisa que eu e minha professora ficou explicando foi no 女, que se lê nü (faz biquinho pra falar) e se refere à mulher, ao gênero feminino, e todas as palavras onde é necessário diferenciar o gênero, ele está presente. Apesar da cultura machista, por exemplo, o “bom”, que se escreve 好, tem um toque feminino. Outro que dá uma levantada na bola na mulherada é “segurança”, an 安 . Segundo a minha professora aquilo ali em cima do caractere é uma representação de casa, ou seja, casa que tem mulher significa em chinês, literalmente, segurança. Curtiu?

Agora tá rolando toda essa tensão em Xinjiang, província no noroeste da China que faz fronteira com o Paquistão e cuja população é, na maioria, muçulmana. As questões étnicas por trás disso são muitas, mas gostei de uma observação que escutei sobre o assunto. Vocês sabem que os muçulmanos não comem carne de porco, né? Isso me lembrou um dos caracteres com a lógica mais sem sentido para mim. Well, suíno por essas bandas se escreve 豕. Lembra da parte de cima do segurança, que a profe disse que era uma representação de casa? Então que se a gente pegar o suíno e colocar aquela partezinha em cima, o caractere fica assim 家, certo? O problema é que isso, em chinês, se lê jia e significa casa, no sentido de lar, ou família. A conclusão da pessoa foi: como eles não vão ficar brabos se colocaram o porco na família? Esse caractere é tão sem sentido quanto a violência dos distúrbios do último domingo.

Bom, mas isso é assunto pra um outro texto, num outro dia.

23 de jun. de 2009

Quem compra o que quer, acaba vendo o que não quer

Dando uma passeada no Sushicast (http://sushicast.net/2009/05/18/homem-descobre-traicao-da-mulher-em-filme-porno/) , blog dos vizinhos brasileiros que vivem no Japão, vi este fato bizarro, dei umas pesquisadinhas a mais e resolvi, na cara dura, contar aqui.

Ta lá o tiozinho, cansadão da vida. Ele decide dar uma apimentada na relação (nem que seja na dele com ele mesmo, se é que você me entende) e compra um DVD pornô. No dia seguinte ele vai preso. Não, ele não tava na China continental, como gostam de dizer aqui, ele estava em Taiwan, onde isto não é proibido. Como, então? 
Depois de comprar o DVD, o tiozinho faceirinho da vida resolveu dar uma conferidinha solito. Mãos a obra, aperta o play, sai o título e quem aparece? A mulher do cara. Ela tinha uma vida pregressa? Não, ela foi filmada sem conhecimento em um motel transando com o amigo do tiozinho. Sério, de dar pena.
O pobrezinho do corno enlouqueceu com a história e foi tentar lavar a honra com sangue. Saiu atrás do amigo e acertou-lhe uma facada na coxa. O jornal taiwanês "Liberty Times" conta que a transa foi filmada com uma câmera escondida no motel e inserida em um DVD chamado "Casos com as esposas dos outros". Bem, com um título desses, quem compra o que quer, acaba assistindo ao que não quer. 
O fim da história? O marido se separou da esposa e foi indiciado por danos corporais, crime que dá menos de seis meses de prisão e pode ser convertido em multa. O ex-amigo fugiu da aldeia. Reza a lenda que a esposa se entregou a uma nova vocação. Vai saber...

17 de jun. de 2009

A noite ao meio-dia

Ontem Beijing foi atingida por uma tempestade como poucas vezes vi na minha vida. De repente o dia virou noite e a escuridão só era interrompida pelo clarão dos raios. Eu, que morro de medo de raios e trovões, só conseguia pensar em dois locais seguros: embaixo da minha cama e no colo da minha mãe.

Para vocês terem uma idéia do festival que virou o céu de Beijing, no período de uma hora o escritório de meteorologia da capital chinesa registrou 538 raios. Gente, é raio pra caramba!

Não foi só a Coruja aqui que sofreu com a tempestade de ontem. Mais de 100 voos atrasaram e dez foram cancelados.  Em Wudaokou, bairro universitário no noroeste da cidade, o povo ficou no escuro e embaixo d'água.

Na foto, surrupiada na maior cara dura do Sina.com, dá para ter uma ideia do que foi o momento "chegou o apocalipse" por aqui ontem. 

Ah, e agora me pergunta se eu trouxe sombrinha? ;)

15 de jun. de 2009

Pelado, pelado nu com a mão no... computador

Todo mundo tem o maluco beleza que merece. Aqui na China Ai WeiWei (艾未未), designer gráfico-artista conceitual-diretor, ocupa o posto de doidão de carteirinha. Pois Ai acabou de lançar um novo blog e deixou claro que chegou para abalar.
Para que ninguém tivesse dúvida de que ele é ele, o cara resolveu publicar umas fotos dele... nu! Isso mesmo que você leu: peladão. Há quem ainda tenha dúvidas se o cara é ele...



O peladão também anda dando pitacos no Twitter e no Fanfou, clone chinês para o microblog mundialmente famoso. Se você entende chinês, vai fundo...