19 de abr. de 2009

69.4 – Dia 4

No quarto dia de tratamento, sigo reduzindo peso, segundo mostra a balança. Meu chinês impede qualquer pergunta sobre qual o segredo do tratamento com agulhadas, mas confesso que o resultado é estimulante. Sigamos em frente.

Antes, que tal saber um pouco, ainda que bem pouco, sobre a acupuntura?

A técnica integra a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e é utilizada na China para combater males há centenas de anos. Os primeiros registros, no entanto, datam de coisa de entre 2 mil e 3 mil anos. O princípio seria simples, manter a harmonia do corpo, alcançado através de estímulos em pontos específicos, que corresponderiam aos diversos órgãos. Para isso, a MTC delineou um mapa que aponta os hemisférios, ou os pontos onde deverá ocorrer a intervenção. No mapa aí de baixo, roubado daqui, você pode ter uma idéia do que estou falando.



O conceito trabalha com a questão do equilíbrio da energia no corpo, outra crença tão cara aos chineses, cujo símbolo máximo, o do equilíbrio, é o taoista Yin e Yang.

Até hoje a eficácia da acupuntura é debatida no Ocidente. Não é de agora que a técnica causa estranhamento e provoca desentendimentos. O primeiro deles ocorreu já na tradução, quando o tratamento foi mostrado fora dos limites asiáticos.

Acupuntura em mandarim é zhenjiu, ou 针灸, cujos caracteres significam agulha e moxa (este último, outra técnica da MTC que se utiliza de ervas incandescentes). Mas o jesuíta apressado (ou vítima de um mal entendido) traduziu para agulha e punção, o que no latim fica acumpunctum e dai você já entendeu. Resultado é que até hoje ligamos o nome às agulhadas e muitas vezes ignoramos que a técnica abarca outras modalidades, como a própria moxa e as ventosas.

Em resumo seria assim, a MTC tem mais de uma maneira de estimular os pontos, ou hemisférios, do nosso corpo, a fim de garantir a esse equilíbrio de energia e, logo, harmonia.

Organização Mundial de Saúde

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar (MAC). Isso significa que a entidade acredita no tratamento como aliado às técnicas da medicina ocidental. Segundo a OMS, em países desenvolvidos, entre 70% e 80% da população já fez uso de técnicas da Medicina Tradicional – que inclui ainda fitoterapia e terapias manuais, como massagens.

No site da organização (em inglês), a entidade afirma que evidências mostram a eficácia da acupuntura no alivio de dores (e de yoga para prevenir crises de asma e de Taichichuan para o equilíbrio dos idosos, se vale a informação). No entanto, alerta que ainda são necessárias mais pesquisas. O que a entidade já faz e trabalhar junto aos países para que estes acrescentes a MT aos sistemas nacionais de saúde, a fim de que se garantam politicas sobre produtos e práticas e, por conseguinte, segurança e qualidade nos procedimentos.

Brasil

O Brasil também reconhece a acupuntura como Medicina Alternativa ou Complementar e desde 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) reconhece tais terapias como eficazes para a prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde. Assim, estão autorizadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas a mesma politica abriu um debate no meio médico e de saúde ao garantir o carater multiprofissional destes métodos. Segundo o texto, as práticas integrativas e complementares podem ser exercidas por profissionais de saúde de áreas diversas, desde que devidamente capacitados. A acupuntura, no Brasil, é realizada por profissionais da área da biomedicina, educação física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, medicina e psicologia.

Aliás, de repente lembrei que não faço ideia da formação da minha terapeuta.

17 de abr. de 2009

70.1 - Dia 3

O terceiro dia de acupuntura significa, em tese, o último dia em que estou proibida de comer carboidratos. Sim, junto às agulhas, massagens e ventosas, há uma dieta para seguir.

Como disse, nos três primeiros dias, os carboidratos estão proibidos. Ao longo de todo o tratamento, não se pode comer doces, frituras, gordura. Álcool está totalmente descartado. Aliás, para beber, nada gelado - a preferência é por líquidos quentes, mesmo água.

Água quente? Sim, mania nacional. Já ouvi diversas teorias sobre a importância da ingestão de água quente - líquido oferecido aos clientes em restaurantes, cafés, salões de beleza, salas de espera em várias cidades aqui na China. O vivente terá alguma sorte se a água vier acompanhada de algum complemento, tipo limão ou folhinhas de hortelã (sonho, sonho). Em geral, vem a água sem nada. Olha, não só acostuma como se torna difícil tomar água gelada depois de um tempo.

Pois bem, falando sobre as teorias. Estar na China e comer e beber como os chineses é se habituar à água quente, antes que você pense em bichos estranhos com temperos esquisistos. No livro Laowai, da jornalista Sônia Bridi, ela aposta que o consumo da água quente se dá devido aos baixos índices de potabilidade. Será?

Pergunte a um chinês por que ele bebe água quente e ouvirás que é para auxiliar na digestão, na circulação sanguínea ou simplesmente para manter a temperatura do corpo que, por volta dos 36°C, não precisaria ser incomodada com um líquido frio. Sem saber exatamente a razão, segui na minha enquete e um colega deu a resposta mais adequada, até agora.

Beber água quente faz parte da cultura chinesa, está ligado à Medicina Tradicional Chinesa, tão cara aos chineses. Basicamente, a função da água quente seria manter um equilíbrio com o meio, segundo ele - que, aliás, diz beber água quente apenas no inverno.

Eu também não sou das mais adeptas, apesar de achar BOM em diversas horas do dia. Se faz bem ou não, não sei. Mas que depois da terceira sessão - e três dias sem ingestão de gelados - saí com 70.1kg, isso eu saí.

Daqui a pouco vou acreditar que água quente faz milagres. Por aqui, é santo remédio para cólicas menstruais, gripes, tosses, indigestão, indisposição, dor de cabeça. Reclame de algo não muito grave para um chinês e vais ouvir, invariavelmente:

- Estás tomando bastante água quente?

16 de abr. de 2009

71 - Dia 2

Tou nem aí pras agulhas.

Esse foi o primeiro pensamento ao chegar à clínica, vamos chamar assim, para fazer a acupuntura. Quem já fez cinco tatuagens, uma delas com a antiiiga técnica de bambu ali na Tailândia, não pode ter medo de espetadas (a prova está aí, a da tatuagem, eu digo).


Espera deitar, tirar a roupa (a gente fica de calcinha e sutiã) e ver a mulher te apontar o arsenal pontiagudo. A sensação é de que vai doer muito. Aí ela te passa um algodãozinho com álcool na barriga, braços, mãos, pernas e abre o saco com as agulhas descartáveis. Pega uma, introduz num cilindro plástico, mira em algum ponto do teu corpo e pronto, ao dar uma estocada na ponta mais grossa da agulha, enfia o artefato. E daí tu pensas "bah, nem doeu".

A brincadeira se repete assim, por baixo, umas 40 vezes. Em alguns pontos dói. Tornozelo. Mão. Cotovelo. E parece que são exatamente nestes locais que a chinesa precisa ajustar as agulhas. Então ela afunda os aparelhos mais um pouco, dá uma torcida pra esquerda, opta por ajeitar para a direita e tu ficas ali, sentindo choquinhos. Chocante. Mas nada tão ruim que não te faça voltar no dia seguinte.

No meu segundo dia de acupuntura, aprendi a importância da recomendação não te mexas durante a sessão. E, claro, da pior maneira possível. Estou gripada, tipo supergripada. E daquelas gripes que não contentes em te fazer espirrar e assoar o nariz o tempo todo, te brindam com bons acessos de tosse.

Pois foi um dos violentos que eu sofri enquanto estavam eu e minhas 41 agulhas sobre a cama da clínica da chinesa. Como quando a gente tosse o corpo balança (sei lá quantos músculos a gente move), senti todas as dores das agulhinhas na barriga. Também no tornozelo. E uma fisgada forte na mão quando tive o impulso de levar a dita cuja, a da esquerda, até a boca.

A chinesa me olhava meio apavorada, com um copo de água na mão, que havia acabado de buscar na cozinha, rindo às pampas quando se deu conta de que seria impossível eu beber. Até porque eu não poderia nem sentar, experiência que, caso eu optasse por passar, talvez fizesse com que alguma agulha desavisada saísse lá pelas minhas costas.

Depois de uns minutos da cena ridícula e incômoda, a tosse se foi.

Na balança, 71kg, sinal de que outros 400 gramas também desapareceram por aí.

I see chinese people

Em Beijing 北京







Em Xi'an 西安


Em Shanghai 上海




Em Qufu 曲阜








Em Harbin 哈尔滨


Todas as fotinhos sao desta que vos escreve

Terra de 巨人 (ju ren)

A China ta se tornando especialista na arte de produzir gigantes! 
Zhao Liang, um altão de 2,46 metros, disse que vai tentar ingressar no Guinness como homem (vivo) mais alto do mundo. 

Zhao Liang, 2,46 metros

Outro recordista que ficou famoso foi outro chinês, Bao XiShun, de 55 anos e 2,36m de altura. Bao até aproveitou a notoriedade pra tentar arrumar uma esposa, tarefa difícil com aquela altura (e aparência também, tadinho). 
Depois do pedido rodar o mundo, ele encontrou a senhora Bao, uma "nanica" de 1,68m, na cidadezinha onde morava, na Mongólia Interior.

Bao XiShun,  2,36m

Mas o único gigante bem-sucedido daqui nem mora mais aqui. O jogador de basquete Yao Ming tem 2,30 de altura e disputa a liga norte-americana de basquete pelo Houston Rockets. O grandão é o quinto homem mais alto do mundo e embolsa uma grana jogando nos EUA e estrelando de garoto propaganda para o tipo de produto na China, de biscoitos a eletrônicos.


Yao Ming, 2,30m
巨人 - Ju ren: gigante

Quando dizem que tudo é superlativo quando o assunto é China... é verdade!





15 de abr. de 2009

71.4 - Dia 1

Assim aponta a balança no primeiro dia de tratamento de acupuntura para emagrecer. Sim, 71,4kg é o meu peso, e até 11 de maio cumpro um pacote de 19 sessões, algumas das quais pontuadas com outras técnicas para além das agulhadas, como massagem e ventosas.

Não faço idéia se há algum objetivo fixado sobre quantos quilos perderei, até porque não entendo a chinesa que me atende. Uma pena. Devo estar perdendo além de gordura, informações valiosas sobre a Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Cobaia surda e muda, ainda que não cega. É engraçado ver minha barriga toda espetada.

Apesar de toda a ignorância, vou tentar ao longo destes dias descrever o que está acontecendo comigo. Antes de optar pela técnica, a primeira coisa que houve foi vergonha ao me olhar no espelho, isso nas férias no Brasil. Tive vergonha ao experimentar biquínis (e eu estava sozinha no provador) e só fui relax pra praia porque pensei: fod*-se!. Mas não estava contente. Nem vou contar que pra (pigarro) pegar gatinhos, de luz apagada era mais confortável.

De volta à China, decidi que embarcaria num regime, mas fora decisões pontuais, como ir à natação e cortar pão e frios no café da manhã, não tinha feito nada substancial. Bueno, tinha diminuído a ingestão de cerveja - uma tortura pra mim, acreditem. O resultado, calculo bem meia boca, foi a perda de algo entre dois e três quilos. E aí, um amigo veio dizer que estava fazendo o tratamento com acupuntura. Por que não? Na China, como os chineses.

Pelas 19 sessões eu vou pagar ¥ 990, ou pouco mais de R$ 320. Segundo minha agenda, na primeira semana recebo acupuntura todos os dias, depois os intervalos serão de dois dias e, finalmente, de quatro dias.

No domingo, ou quinto dia de sessão, será a vez de encarar o baguan (拔罐, ou 拔火罐 para bahuoguan), que são as ventosas. Na quinta, terei uma sessão de massagem redutora, que em chines seria 按摩消脂, ou anmo xiaozhi. O baguan ainda ocorrerá por outras três vezes, enquanto a massagem, só mais uma.

Desejem-me sorte.

14 de abr. de 2009

Eu não me lembro do seu nome

Preciso tanto descobrir

Ficar com um cara sem saber sequer o nome da criatura é tão ruim assim? Também não ter ideia sobre a idade deporia muito contra a sua reputação?

Pelo menos tou sabendo que ele é de Nova York, de férias na China, estudante de matemática e achou divertidíssimo a história dos cartões vermelho e verde nas churrascarias de São Paulo, quando lá esteve a trabalho ou de férias, não lembro, que indicam que o cliente está satisfeito. Ou não. Aliás, o mocinho disse que adorou a carne brasileira.

Obrigada!