27 de ago de 2009

Twitter, Fanfou, Jinwai, Taotao e a censura: o mundo dos microblogs na China

Eu tuíto, tu tuítas, ele tuíta. Bem, na China eles também tuítam. Quer usar o serviço daqui? Então é bom saber umas coisinhas. Aqui, os microblogs são chamados 叨客 ("dao ke"), uma combinação entre os caracteres que indicam conversa e blogs. Após o surgimento do Twitter, clones do serviço começaram a aparecer e a microblogagem acabou se popularizando pelas imitações. Fanfou, JinWai e TaoTao desbancam a ferramenta mais popular no resto do mundo. 

O primeiro motivo é que o Twitter, apesar de permitir as postagens em chinês, não possui a opção do idioma nas configurações, o que aqui é motivo suficiente para perder muitos usuários. Hoje o segundo motivo é também pertinente: o Twitter está bloqueado na China, junto com os irmãos genéricos. Hoje microblogagem é atividade clandestina, tal qual as missas dos católicos que seguem o Vaticano ou a Falun Gong (http://en.wikipedia.org/wiki/Falun_gong).

Tem mais uma aspecto dos clones que chama atenção: a maioria dos genéricos permite a integração de mensageiros, como msn, gtalk e QQ (o mais popular do país), ao serviço. Para a massa jovem que acessa a internet na China, segundo pesquisa da Netpop Research 73% dos internautas chineses tem de 13 a 34 anos, faz diferença.  

Uma outra pesquisa, realizada pela Sysomos (http://www.sysomos.com/insidetwitter/), divulgada em junho, traça um perfil sobre os usuários do Twitter e mostra que apenas 0,49% das 11,5 milhões de contas analisadas são da China. O dado deixa o gigante asiático em 17º lugar na lista de países que mais usam esta rede social.

Para Michael Anti (安替), jornalista e pesquisador chinês da área de internet, que teve o blog deletado na China pela Microsoft a pedido do governo por causa do conteúdo subversivo, o Twitter e a microblogagem ainda são tão recentes no país que até mesmo a censura precisa de um tempo para pensar melhor sobre o assunto. Claro, para a censura está mais fácil pensar com tudo devidamente bloqueado. Mas Anti está lá, conhecido como @mranti (www.twitter.com/mranti), tuitando diariamente sobre assuntos que não alegram o governo central chinês.

De fato, o serviço pode não ser tão recente, mas a popularização mundial é. O número de usuários cresce em grandes proporções em todo o mundo e muitos ainda estão descobrindo o serviço. Segundo a mesma pesquisa da Sysomos, 72,5% do total de usuários do Twitter se cadastrou nos cinco primeiros meses de 2009 e apenas 5% do total é responsável por 75% de toda a atividade do sistema.

Anti lembrou um aspecto da microblogagem na China que deve ser levado em conta. Tuitar em chinês pode ser mais fácil e mais completo do que em línguas como inglês e português, já que o uso dos caracteres chineses permite um volume muito maior de informação. "Graças à alta intensidade da informação proporcionada pelo idioma, 140 caracteres chineses podem responder às cinco perguntas fundamentais do lide jornalístico (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lead), por exemplo", disse. O lado negativo ficaria por conta do baixo aproveitamento que os internautas chineses fazem da ferramenta e da censura, que contribui bastante para que o serviço não seja tão popular.
Quem são os irmãos chineses:

1. Fanfou.com (http://www.fanfou.com/)

Foi o primeiro dos microblogs chineses a bailar, depois do conflito em Xinjiang, no dia 5 de julho. Antes, de 3 a 6 de julho, ficou fora do ar por causa do aniversário de 20 anos de um certo massacre em uma certa praça. Hoje é o maior e mais popular da China continental. O layout e a funcionalidade do site são bem parecidas com o do Twitter nos mínimos detalhes: você pode atualizar o FanFou a partir da frase "o que está fazendo" em menos de 140 caracteres, ele suporta e atualiza recebendo notificações via Gtalk, MSN, QQ, celulares e internet e apresenta as atualizações das pessoas que você segue pelo mesmo estilo de timeline. Sério, bem parecido. Wang Xing é fundador e CEO do FanFou. 

2. JiWai.de (http://jiwai.de/)

JiWai.de foi o primeiro irmão chinês do Twitter. Permite também especificar quais usuários você pretende seguir para que as mensagens possam ser lidas em um único local. Assim como o Twitter, o Jiwai suporta atualizações através de SMS e Gtalk. Para atender à demanda dos usuários chineses, a ferramenta também suporta atualizações de outros mensageiros, como o QQ. Li Zhuohuan é fundador e CEO da JiWai.de. A capa do site indica que ele está em manutenção, mas que volta logo. Nem Mao sabe quanto tempo vai levar este "logo".


O QQ é o mensageiro mais popular na China. Embora a empresa criadora tenha percebido o valor dos microblogs e lançado o TaoTao, este não é tão funcional quanto os concorrentes no país. Diferente do FanFou, o TaoTao aceita apenas atualizações via QQ e web. Porém, hoje ele é um dos poucos não censurados pelo governo, o que acaba mantendo mais usuários, já que muita gente tem preguiça de ter que procurar um meio, digamos, alternativo, para postar. 

Outros microblogs na China (que um dia, quem sabe, serão desbloqueados)
Komoo - http://komoo.cn - a página inicial é praticamente igual à antiga página do Twitter. Não é muito popular, mas não está bloqueado.

Passeando por aí sem sair do lugar

Este aqui eu catei nos itens compartilhados pela dona Érica (http://kika.blogspot.com) no Google Reader.

Sabe o Google Maps? Pois é, agora imagina tudo com um clima Sim City. É basicamente o que esses mapas criados pelo Edushi.com fazem (http://edushi.com/). Você escolhe uma cidade e sai passeando por aí num clima de desenho. Legal, né? 

Tem um monte de cidades chinesas disponíveis. Eu, claro, fiquei hoooooras passeando por Beijing, passei pelas ruas de todo o dia, achei endereços familiares, catei lugares que eu ouvi falar e nunca fui. A foto do post, por exemplo, é de onde eu trabalho aqui. 

Quer passear na China também? Então clica lá!

Beijing - 北京 - http://beijing.edushi.com/

Shanghai - 上海 - http://shanghai.edushi.com/

Xi'an - 西安 -http://xian.edushi.com/

Harbin - 哈尔滨 - http://harbin.edushi.com/

Chengdu - 成都 - http://chengdu.edushi.com/

Chongqing - 重庆 - http://chongqing.edushi.com/

Urumqi - 乌鲁木齐 - http://wulumuqi.edushi.com/

Guangzhou - 广州 - http://guangzhou.edushi.com/

Nanjing - 南京 - http://nanjing.edushi.com/

Qingdao - 青岛 - http://qd.edushi.com/

25 de ago de 2009

40 mil yuans por um filho homem

A China tem uma política de controle populacional bem rígida e que é conhecida no mundo todo: a lei do filho único. Nos primeiros anos de aplicação, principalmente, se tornaram notórias as histórias sobre mortes e abandono de meninas, já que a sociedade valoriza muito a presença de um filho homem na família. Pela tradição, é ele, por exemplo, que cuida dos pais na velhice, só para citar o começo. A preferência, durante muito tempo, criou um outro problema: a falta de mulheres. É claro que além de fazer com que o país não exploda com a presença de tanta gente, a política do filho único acabou criando, digamos, um novo mercado: o tráfico de mulheres e crianças.

Existem tantos crimes hediondos, que é complicado dizer o que é pior. Mas tráfico de seres humanos está, sim, no top 10. Vi uma matéria na Xinhua, agência de notícias, que me deixou bem chocada. Uma quadrilha foi sentenciada a prisão perpétua hoje, no sul da China, por cometer este tipo de crime. Você já parou para se perguntar quanto vale uma vida? Pois, esta quadrilha do sul da China tem isto na tabela: 12 mil yuans por uma mulher e 17 mil yuans por um menino. Como o negócio tem intermediador, o menino acabou sendo vendido por 40 mil yuans (R$ 10,7 mil). 

O tráfico de seres humanos não é um problema que só acontece na China, e notícias assim, em outros países, também me chocam. Sempre vão chocar. Como alguém pode levar outro ser humano contra a própria vontade, destruindo não só a vida dele, mas dos outros ao redor, e cobrar, estabelecer um preço por isso. É horrível, injusto, cruel, desumano, doloroso, nojento. A diferença é que a aplicação da lei (de algumas, principalmente) é bem rigorosa na China, ao contrário de muitos outros países, como o Brasil, onde o tráfico de pessoas está presente. E essa pena prisão perpétua decretada hoje em Kunming, tenha certeza, será aplicada.

Para lá de samba na China veia

Quem acha que na China só se escuta Ópera de Pequim (http://v.youku.com/v_show/id_XNDU3OTczNjA=.html) ou que o Brasil só exporta samba vai ter que rever seus conceitos. No próximo dia 5, Beijing, ser palco para o rock and roll made in Brazil. 

Três gauchinhas que se encontraram por aqui, Fernanda Morena, Paula Coruja e Janaína Silveira, estarão no comando do som do clube Obiwan (http://clubobiwan.com.cn), um dos bares mais descolados da capital chinesa.

O nome da festa já é um decreto, Enough of Samba. Não por não gostar, mas para mostrar que em terra tupiniquim guitarra também tem vez. Para botar um tempero, as moças vão mostrar novidades do rock n'roll, num passeio que vai das bandas chinesas P.K.14, Snapline, Tookoo e Carsick Cars às francesas Noir Désir, Les Innocents, M e Vive la Fête. Velharia também tem vez, porque AC/DC, Joy Division, The Clash, Beatles e Hendrix nunca fizeram mal a ninguém. Claro que quando três gaúchas se juntam, Cachorro Grande, Cascavelletes, TNT, Bandaliera, Ultramen, Damn Laser Vampires e mais uma renca de bandas do sul, vão acabar dando o ar da graça. 

Quem são essas gurias? Fernanda edita e produz o Bsides, site com versão em português (www.bsideschina.net) e inglês e chinês (www.bsideschina.com) sobre cultura pop e contemporânea. Janaína se aventura em microdocumentários sobre a China em www.vimeo.com/janajan, enquanto Paula, esta Dona Coruja que vos escreve, mantém o olho atento no que rola por aqui e publica no Comendo de Palitinho.

Ah, a criação do flyer da festa, que está circulando nas revistas, sites e bares de Beijing, também é dos pampas. A assinatura do layout é da Renata Dihl, guria pra lá de talentosa e de quem tenho o orgulho de dizer que sou amiga. A Rê está a frente do www.gaiacriacao.com.br.

Gostou? Quer pedir uma música? 

60 anos com novo dicionário (sem a simplificação complicada)

Mais uma para comemorar os 60 anos da República Popular da China. Antes do dia 1 de outubro, o governo vai lançar a sexta edição do CiHai (词海), Mar de Palavras, publicação meio dicionário, meio enciclopédia, importantíssima por aqui e, principalmente, para o idioma chinês.

 

A nova edição terá cinco volumes e cerca de 22 milhões de caracteres chineses, um aumento de 10% em relação à última edição. Se eu tivesse pesquisado um pouquinho mais, não teria dado este furo sobre os 40 mil caracteres (http://comendodepalitinho.blogspot.com/2009/08/simplificacao-que-vai-ajudar-dificultar.html). Sério, 22 milhões de caracteres é muita coisa.

 

Numa rápida pesquisa com os chineses que eu conheço, deu para perceber que nem sendo chinês e estudando chinês a vida inteira dá para saber tudo isso. Quando eu perguntei: "você conhece os 22 milhões de caracteres que serão publicados no novo Cihai?" as respostas variam entre: "hahahahahaha", "nem metade" e "tudo isso?".

 

Parece que eliminaram da nova versão 7 mil termos que se tornaram obsoletos ou pouco utilizados. Juro que espero que nada do que eu sei esteja entre o que foi eliminado. Porém, muitas novas expressões foram acrescentadas, como os estádios construídos para a Olimpíada, o Ninho de Pássaro e o Cubo D'água, e outros termos legais, como o sistema de audiência pública, e médicos, como a Síndrome Respiratória Aguda Severa, SARS. Claro, o Conceito Científico de Desenvolvimento (http://portuguese.cri.cn/101/2007/09/03/1@74603.htm), nova diretriz do governo chinês, também está lá no dicionário-enciclopédia.

 

O CiHai vai estar disponível por módicos 1000 yuans (cerca de R$ 270) É, e não falaram nada da simplificação de caracteres no pai-dos-burros novo.

24 de ago de 2009

Você também deixaria a China por causa da censura na internet?

Quem frequenta este blog já viu muita reclamação sobre a censura que a internet na China sofre. Quem está aqui sabe que não é mimimi, a coisa é séria e enche o saco. Se você acha que não acessar o orkut ou facebook no escritório é chato, imagina não conseguir acessar nada do que está acostumado, como youtube, picasa, twitter, facebook, blogger, wordpress, sem ter um proxy ou vpn (http://en.wikipedia.org/wiki/VPN). Imagine também não poder acessar alguns jornais e sites de notícias. Agora imagine isto durante todos os dias por pelo menos dois anos. Encheu o seu saquinho também? Pois é.

Estes dias o Danwei (http://www.danwei.org/), site bacana com notícias relacionadas à mídia, propaganda e internet na China também bloqueado em território chinês, fez uma pesquisa rápida (http://www.danwei.org/net_nanny_follies/would_you_consider_leaving_chi.php) para saber se as pessoas considerariam deixar o país por causa dos bloqueios. O resultado: 60% das pessoas disseram que sim, isto pode ser um motivo.

Eu fiquei admirada, pois 60% não é um número a ser desprezado. Tudo bem, reclamo, bem ou mal vim de um lugar com bagunça política, mas liberdade de expressão, mas nunca pensei seriamente nisto como motivo para pegar a viola, botar na sacola e viajar de volta para casa. Alguns não são tão radicais, consideraram apenas ir para Hong Kong, pois por causa da política de Um País Dois Sistemas (http://en.wikipedia.org/wiki/One_country,_two_systems), a imprensa (e internet) é livre no ex-território britânico. 

Na pesquisa é importante destacar outro aspecto: a maioria das pessoas que atenderam são estrangeiros. Para um chinês, simplesmente deixar a China para ir a qualquer outro lugar não é tarefa simples, mesmo com toda integração que o mundo quer com o gigante (mercado) asiático. Quem acha que passar pela imigração com o passaporte verdão (hoje azulão) brasileiro é complicado, não imagina como é ter o vermelhinho da terra do mao.

Abaixo o resultado em português: 

1 - O bloqueio à internet na China torna seu trabalho mais difícil?
Sim: 84%
Não: 16%

2 - O bloqueio dificulta sua vida pessoal e lazer ou dificulta o acesso?
Sim: 90%
Não:10%

3 - Você consideraria deixar a China por causa do bloqueio à internet?
Sim: 60%
Não: 40%

4 - Você mora na parte continental, Hong Kong, Macau, Taiwan ou é estrangeiro?
Parte continental: 27%
HK/Taiwan/Macau: 3%
Estrangeiro: 70%


E você? O que achou? 


21 de ago de 2009

Um papinho às sextas

A internet na China tem seus mistérios. Algumas coisas (lembram? Youtube, Blogger, Wordpress, Twitter...) são proibidas e a gente sabe. Outras coisas são censuradas aleatoriamente, dependendo do que está acontecendo no momento no país, como o Hotmail e a página do msn. Outras ainda são consequência dos inúmeros desastres naturais que acometem o país, como o rompimento de um cabo, semana passada, entre Shanghai e os Estados Unidos após a passagem do tufão. Agora, como bem levantou o @Cardoso estes dias, pode ser tudo isso combinado com uma dose incompetência. O ponto é que agora eu não consigo mais acessar decentemente nada do que eu acessava, nem proxy, nem vpn, nem nada. As postagens neste blog estão ocorrendo todas nos escuro, por email mesmo. Um pé no saco. 

Este post é para dar uma satisfação e um retorno para todo mundo que acessa o Comendo de Palitinho, além de ser uma oportunidade para fazer do limão uma limonada. Já que não consigo entrar para responder os queridos comentários, vamos por aqui mesmo. Nada funciona, mas sabe como é, sou brasileira e não desisto nunca.

Richard Amante, que comentou no post "In the Mood for China"
Cara, para ser ainda melhor, Beijing precisava vender erva-mate. E colocar um chimarródromo no meio do Parque Chaoyang. Já pensou?

Guilherme Reis, que comentou no post "Não entendi se Plastic City era para rir ou para chorar" (http://comendodepalitinho.blogspot.com/2009/08/nao-entendi-se-plastic-city-era-pra-rir.html)
Bem, tu sabe que "interessante" pode ter muitos significados. Eu achei o filme A bomba, mas ri a beça. O importante é não levar nada a sério. Nada pode ser mais engraçado que o Chacrinha vendendo muamba num puteiro! hehehehehehehe

Lobo Mal, que comentou no post "Estudante paga meia... no aborto" (http://comendodepalitinho.blogspot.com/2009/08/estudante-paga-meia-no-aborto.html)
Não tem jeito, a gente acaba ficando chocado com o desapego. É estranho ver a ausência daquela culpa judaico-cristã. Mais uma das tantas diferenças culturais. 

Michele, que comentou no post "O Super Baozi" 
hehehehehehehe, eu não tentei porque sou péssima cozinheira mesmo! Com pães e massas então... nem se fala! Minha professora de chinês deu risada quando contei que consegui estragar o prato chinês mais simples de fazer (e pra mim o mais gostoso), que tem, basicamente, só tomate e ovo. Não adianta, pra certas coisas tenho duas mãos esquerdas! hehehehehehehehe

Obrigado pelos comentários! Qualquer coisa, solta o verbo!Perguntas, dúvidas, sugestões e reclamações neste guichê.

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O Comendo de Palitinho foi citado em outras bandas.
 
Fiz um relatinho para o Meio Bit (http://www.meiobit.com) das peripécias para comprar meu netbook, que você pode ler aqui: http://www.meiobit.com/meio-bit/netbooks-melhor-made-in-china-do-que-comprado-na-china

Lá no Brazil com Z (http://brasilcomz.wordpress.com), ótimo blog feito com a colaboração de expatriados brasileiros pelo mundo, colaborei com um textinho publicado aqui, o In the mood for China, http://brasilcomz.wordpress.com/2009/08/14/in-the-mood-for-china/

Ainda não tá propriamente lançado, mas já está no ar o Bsides China, site superbacana sobre cultura e música da China, que vai ser publicado em inglês, português e chinês. De vez em quando também colaborarei por lá. O endereço em português é www.bsideschina.net.

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Gostou da foto que ilustra este post: Eu também. Ela estava exposta na exposição sobre os 30 anos de reforma e abertura da China, em dezembro do ano passado, em Wangfujing (王府井), no centro de Beijing. A chinesada moderninha em 1980, curtindo o outono, surpreendida num dia qualquer em Beijing. Infelizmente não achei o nome do fotógrafo.

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Bom, por hoje é só, pessoal!
A gente se vê por aí

星期五见!

20 de ago de 2009

A simplificação que vai ajudar a dificultar a minha vida

Vocês estão carecas de saber que aqui o idioma é outro, mas principalmente, o sistema de escrita é outro. O povo aqui não usa alfabeto, mas caracteres, 汉字 (hanzi), que indicam significados completos e quando combinados formam novas ideias e/ou palavras. Como toda a língua, o mandarim também sofreu mudanças ao longo do tempo, em termos de pronúncia e escrita. E é exatamente sobre mudanças na escrita que eu quero falar.

Vou deixar aqui bem claro que eu não sou linguista, não estudo chinês há muito tempo e nem como deveria. Eu sou uma grande curiosa e acho a escrita em caracteres fascinante. Eu vim para a China para trabalhar, mas mesmo assim, entre trancos e barrancos, estou me esforçando para aprender mandarim. Tento não só aprender a como me comunicar, mas como ler e escrever também. Sei que vou precisar estudar ainda alguns bons anos, ainda mais no ritmo que eu tenho levado as coisas, mas isto não diminui a minha curiosidade e vontade de aprender. Esclarecido isto, vamos adiante.

A simplificação dos caracteres chineses em 1956 foi um dos aspectos da evolução da língua. O número de traços foi diminuído como consequência, em muitos casos, do uso que já era dado por quem faz um idioma: as pessoas. Claro, outras modificações foram sugeridas pelos estudiosos chineses do idioma, que descaracterizaram completamente alguns ideogramas, abandonando totalmente a ideia original.

Para um estrangeiro, ter o domínio total dos mais de 40 mil caracteres que compõe a língua é bem complicado. Na realidade, os 40 mil são complicados até para os chineses. Parece que tá bom quando a gente sabe 3 mil e tri bom quando sabe 5 mil, quando a pessoa já é capaz de ler jornal e alguns livros. Não sei o quanto eu sei, mas garanto que não leio um jornal. 

Pois bem, no final deste ano os hanzi vão passar por mais um processo de simplificação. O argumento é que isto vai popularizar ainda mais o idioma entre os próprios chineses, facilitando o aprendizado. Além disso, atenderia a uma necessidade iminente de ampliar o vocabulário para se adaptar às novas necessidades linguísticas, com o surgimento de novos nomes, novas tecnologias. 

Well, é aqui que eu desanimei. Dá muito trabalho aprender chinês. Aprender a escrever usando ideias no lugar de palavras é bem complicadinho, leva um tempo para entender e enxergar lógica naquilo tudo. Daí, justamente quando eu estou começando a engrenar e me sinto superempolgada para aprender a ler e escrever, eles resolvem mudar tudo!!! Sério, tudo o que aprendi até agora vai mudar. Tudo bem, meu pensamento é egoísta, mas puxa vida, se é pra simplificar de vez, revoluciona e adota um alfabeto nos moldes do katana e hiragana japonês, ou coreano, ou descamba de vez e faz como o Vietnã, que usa o alfabeto romano. Simplificar agora vai só fazer as coisas ficarem mais difíceis... para mim! Tá bom, parei com o mimimi e vou pegar os livros de novo. 

19 de ago de 2009

Estudante paga meia... no aborto

Primeiro, dê um desconto. A cultura chinesa não prevê qualquer culpa em relação ao aborto. Depois, ainda assim fique de boca aberta, como eu fiquei. Um hospital de Chongqing, que se intitula a maior cidade do mundo, com uma massa humana que gira em torno de 31,5 milhões de habitantes à beira do Rio Yangtze, lançou um anúncio um tanto peculiar. Abortos com 50% de desconto para quem apresentar carteirinha de estudante.

Estudantes + sexo sem proteção + falta de educação sexual + ausência de métodos contraceptivos + país em que aborto é legal + carteira de estudante = DESCONTÃO.

Não sei qual destas variáveis me horrorizam mais. Vamos à tradução do texto do anúncio, feita primeiro para o inglês pela equipe do site Shanghaiist (http://mobile.shanghaiist.com/).

"Os estudantes são o nosso futuro, mas quando algo acontece a eles, quem irá protegê-los e ajudá-los? O Hospital Feminino Huaxi deu início ao Mês de Cuidado às Estudantes, durante o qual as garotas terão desconto de 50% em abortos se mostrarem o cartão estudantil. As cirurgias são as mais avançadas do mundo e não provocam problemas ao útero, não doem, são rápidas e você pode fazer qualquer coisa que desejar depois. Também não afetará seus estudos ou trabalho."

O anúncio chama a atenção para uma realidade que começa antes da gravidez indesejada. Começa no tabu que é o sexo por aqui e, em decorrência disso, no vasto desconhecimento sobre como se precaver. Imagine que num país regido pela lei do filho único a vinda de um bebê não programado é bem complicada. Você só terá direito a um, na maior parte dos casos, e se por um lado muitos adolescentes não fazem ideia sobre como prevenir uma criança, tem plena certeza de que buscam um futuro melhor e que, uma vez conquistada certa estabilidade financeira, então chegará a vez de dar à luz. Antes disso, recorramos à praticidade, ou seja, abortar.

O sexo entre os jovens ainda acende outras discussões - muitas pontuadas por um preconceito que perpassa as relações sociais. O professor de Guangzhou Zuo Bin, que conduziu uma pesquisa entre estudantes da província, descobriu que 17% dos adolescentes entre 15 e 18 anos já haviam tido experiências sexuais.

"A maioria dos estudantes que tiveram experiências têm pais divorciados ou muito ocupados", disse o professor. Aliás, para ele, as meninas acabam grávidas porque não sabem como se prevenir, mas querem mostrar seu afeto pelos caras. Os mocinhos que querem mostrar amor pelas meninas não contam?

Bueno, agora são férias. Talvez o anúncio de Chongqing tenha vindo em boa hora. Segundo a obstetra Song Luyin, o número de adolescentes procurando por abortos sempre aumenta durante as férias de verão, exatamente o período por que passamos agora na China, onde trabalha, o Hospital Feminino e Infantil de Guangdong.

Em reportagem publicada pelo jornal China Daily, a versão em inglês impressa da mídia estatal chinesa, em 30 de julho, a China realiza 13 milhões de abortos e vende 10 milhões de pílulas do dia seguinte todos os anos. O maior fator é o desconhecimento sobre métodos contraceptivos.

A ignorância entre os parceiros revela despropósitos como o fato de 70% dos entrevistados pelo Hospital 411 do Exército da Libertação Popular em Shanghai não saber que sexo pode transmitir o vírus HIV. E de menos de 30% saber como prevenir gravidez.

Segundo o governo, 62% dos abortos na China ocorrem entre mulheres dos 20 aos 29 anos, a maior parte solteiras. Agora, segundo Yu Dongyan, ginecologista do hospital de Shanghai, as estatísticas não são totalmente confiáveis, pois há muitos procedimentos feitos em clínicas clandestinas (imagino que mais devido a preços do que outra coisa, já que aqui é totalmente legal abortar).

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Mais numerinhos

Um aborto na China custa cerca de 600 yuan, ou US$88.

Nascem 20 milhões de chineses por ano.

Texto da Jana Jan

17 de ago de 2009

Não entendi se Plastic City era pra rir ou pra chorar

Eu juro que dei uma chance. Fui com o maior pique e disposição assistir Plastic City (http://v.youku.com/v_show/id_XMTA5NDg3NDI0.html), como comentei que faria (http://comendodepalitinho.blogspot.com/2009/08/o-que-esperar-de-uma-producao-sino-nipo.html). Ignorei as vaias que a película levou no Festival de Veneza (http://cinema.uol.com.br/veneza/ultnot/2008/08/30/ult6418u15.jhtm), ignorei as péssimas críticas (http://robertomaxwell.com/2009/03/29/plastic-city-o-filme/http://asiaagora.blogspot.com/2009/08/plastic-city-comeca-bem-mas-se-perde-na.html) e fui. O filme é uma produção sino-nipo-brasileira, com direção de Yu Lik-wai, de Hong Kong, falado em cinco idiomas (mas juro que só contei quatro), um drama que conta a história de gângsters chineses em São Paulo. Eu dei risadas. Muitas. Alto. O problema é que teve bastante gente que levou o filme a sério. Farei uma lista de dez motivos para justificar o porquê de achar que Plastic City é uma comédia e não um drama:

1) Ele começa dentro da floresta amazônica. E tem um tigre branco lá.
2) O filme é, principalmente, falado em português e chinês. O protagonista não fala nenhuma das duas línguas e foi toscamente dublado. Estou até agora tentando me lembrar de quem é aquela voz na sessão da tarde.
3) Um cara fantasiado de Chacrinha aparece dentro um puteiro vendendo bolsas.
4) Eles colocam praia em São Paulo.
5) Eles colocam um morro carioca (com favela, claro) praticamente do lado da Liberdade em São Paulo
6) Eles fazem nevar em São Paulo
7) As gangues se pintam como índios indo para a guerra para brigar na rua. E eles brigam com espadas.
8) Um chinês vai para uma tribo na amazônia e vira pajé
9) Todo mundo acaba se cruzando dentro da floresta amazônica. É só virar à esquerda na placa do Oiapoque e seguir reto. Novo point da galera.
10) O diretor acha que o público brasileiro vai gostar do filme porque retrata bem a realidade brasileira.

Ontem, depois da exibição, Yu Lik-wai foi comentar o filme e participar da sessão de perguntas e respostas. Foi quando eu parei de achar o filme engraçado. O diretor realmente levou tudo aquilo, e todos os aspectos que envolviam o filme, a sério. E a plateia, formada na maioria por estrangeiros (poucos brasileiros e chineses compareceram), também.

Yu disse que acredita que conseguiu fazer um filme bem realista e que não precisou apelar para estereótipos sobre o Brasil. Olha, para mim só faltou a Carmem Miranda aparecer cantando para ser mais estereotipado. Futebol estava presente, numa televisão na prisão (por falar nisso, existe alguma penitenciária no Brasil podrona estilo Carandiru, mas que os detentos usem unifome?). Toda a questão da cultura, de mixar histórias é válida, acho que bem válida. O problema é que ele se perdeu na jogada, em vez de usar de bom humor para fazer isto. Sou uma pessoa boazinha em geral, mas tenho que dizer que foi o mico máximo na carreira de todo mundo que estava ali até agora. Até do Alexandre Borges, que aparece pouquinho e como político corrupto.

Teve gente da embaixada brasileira reclamando que o filme mostra só o lado ruim do Brasil. Sinceramente, esse papo de lado ruim do Brasil cansa. O lado ruim do país é o de menos no filme. O Brasil é um grande consumidor de pirataria? É. O Brasil tem polícia e políticos corruptos? Tem. Acho que poderia, sim, ter mostrado São Paulo de um jeito diferente. É a maior cidade do Brasil, com uma diversidade cultural intensa. No filme parece que São Paulo é uma cidade de porto e favela. E os meninos colocando fogo em mendigo também foi demais. Como muitas outras coisas do filme, não precisava.

Plastic City é uma mistureba tão grande, mas tão grande, que tem espaço até para história real. Segundo o diretor, ele se inspirou na vida de Law Kin Chong, chinês naturalizado brasileiro, dono de dois shoppings na 25 de março, considerado o maior contrabandista do Brasil e que agora está preso. Vai que ele se inspira no filme e foge para a floresta amazônica virar pajé. Porque pajé da pirataria ele já é.

Falando em pirataria, não acreditei quando o diretor do filme veio com o papo de que pirataria não é um problema para o cinema. Eu achei que este era um dos únicos aspectos que cineastas do mundo inteiro concordavam. Talvez não seja um problema para ele, que fez um filme com dinheiro público de três países.

Depois de tudo isso, nem ao final do filme pude assistir. Não, não foi porque não aguentei tanta coisa ruim. O final do filme não rodou, deu problema na exibição. Dizem as más línguas que é porque o diretor levou um dvd pirata. Não duvido, já que, afinal, pirataria não é um problema mesmo.


PS: Perdoem os links abertos ali. Aqui tá complicado para postar. Todas as camangas que eu usava não estão mais funcionando, não estou conseguindo editar no blogger. Provisoriamente as coisas ficam assim.

14 de ago de 2009

Um mês com arte em destaque

Um dos lugares mais bacanas de dar uma passeada em Beijing é Dashanzi, o distrito de arte. O 798 é um complexo de prédios e galpões onde funcionam galerias de arte dos mais variados tipos, origens e tamanhos, que foram alocados onde funcionava uma antiga fábrica na cidade. Fica um pouco longe do centro, dizem que intencionalmente, para não deixar as pessoas tão próximas de algo que pode ser subversivo. Com o crescimento da cidade, estas distâncias diminuíram bastante e o 798 se ampliou. O número de galerias triplicou nos últimos cinco anos. Além disso, tem vários restaurantes e cafés bacaninhas para quem quiser passar o dia por lá. 

Criança crescida que é, o 798 vai realizar sua primeira bienal. De 15 de agosto a 12 de setembro, passa lá para prestigiar as exibições dos trabalhos de mais de 70 artistas chineses e internacionais, incluindo pintura, escultura, vídeo, instalações, fotografia, cartoons, e mais. Tem de tudo e de tudo tem em nome da arte. Zhu Qi, crítico de arte chinês, assina a direção artística do evento e Marc Hungerbühler, fundador do New York City's the:artist:network, é o curador. Além de exibir, a bienal de Beijing irá discutir arte, com a realização de fóruns, simpósios e palestras sobre as mais diversas particularidades artísticas. A função toda está sendo realizada sem nenhum tipo de ajuda do governo ou qualquer grande museu.

Para conferir a programação completa, clica aqui: http://www.theartistnetwork.org/

O cartoon que ilustra o post é trabalho do chinês Yan Cong (煙囪), que também está em exibição no 798.

13 de ago de 2009

Festival da Cerveja também é coisa de chinês

Qingdao está em contagem regressiva. Do dia 15, sábado, ao dia 30 de agosto, acontece o Festival Internacional da Cerveja de Qingdao e a cidade litorânea, que a essas alturas do campeonato no ano passado recebia as provas marítimas da Olimpíada, vai colocar todo mundo a experimentar o que de melhor é produzido lá: Tsingtao, a cerveja.

Na real mesmo, nem só de Tsingtao vive um chinês, e diferente de outros festivais da cerveja, em Qingdao (青岛) você poderá beber mais de cem tipos diferentes de cerveja de tudo quanto é canto do mundo. Não é a toa que este é o maior festival do tipo por aqui, e recebe gente do mundo inteiro. Que acham de passar por lá para se acabar de tanto gritar “ganbei”?

Quando fui à Qingdao não era época de festival, o que de forma alguma atrapalha. Na Jiubajie (酒吧街), a rua dos bares, é SEMPRE festival da cerveja. A chinesada é mega receptiva (não sei se só por causa do goró), pode ter certeza que você será convidado a sentar em outras mesas, beberá com os chineses em sua homenagem e comerá um monte de frutos do mar. Qingdao é bem legal. Durante o dia, cure a ressaca na praia, ou se você é daquelas pessoas afortunadas que não sabe o que ressaca significa, vá passear na parte antiga da cidade, nas praias ou visite a Lao Shan, montanha que logo ali e vai te dar uma vista superbonita da cidade.

Mas voltando à 啤酒(pijiu - cerveja), eu tava agorinha dando uma espiadinha no site da Tsingtao em inglês e tem umas coisinhas legais. Não é um site superbacana ou cheio de conteúdo, mas dá pra ler uns textinhos sobre aspectos da cultura do país, como o horóscopo chinês, receitas do famoso (hein?) chef Martin Yan, um cantonês pelo visto bem conhecido fora. Quando você acessa a versão em chinês a coisa vira uma bagunça maior, mas tem mais informação. Claro, em mandarim.

Óbvio que depois de dar uma lida, vai correndo pro litoral prestigiar o festival. Para ser ainda mais atrativo, o evento vai rolar ali na beira da praia Shilaoren (石老人). Aí vai o restinho do serviço para quem puder (e tiver fígado para isso):

Quando: De 15 a 30 de agosto, das 9h às 22h,
Preço: 10 yuans ( das 09h às 15h), e 20 yuans (das 15h às 22h)
Onde: Qingdao, Cidade Internacional da Cerveja
Endereço: Xiang Gang Zhong Lu, 195.
Distrito de Laoshan – Praia Shi Lao Ren
Qingdao, Província de Shandong, China
青岛国际啤酒城, 香港中路195号, 中国山东省青岛市

12 de ago de 2009

Acampando ou não, tem que ir à Muralha

A chinesada essa semana gritou. Um grupo de estrangeiros resolveu acampar lá na Grande Muralha. Tudo bem, este grupo não foi o único na história a passar a noite num dos maiores símbolos da China. O problema é que a rigor é proibido e os chineses ficaram indignadíssimos e discutiram isso na rede esta semana. A maioria achou uma grande falta de respeito ao patrimônio histórico da China e, por consequência, aos chineses.


Claro que a história não é bem assim e no fim das contas a culpa é do dinheiro. Hein? Mesmo com a proibição, existem empresas que estão oferecendo pacotes turísticos que incluem um pernoite em uma seção da Grande Muralha. O preço é até bem salgado, entre 400 e 500 yuans (já fiquei em hotéis 4 estrelas em algumas cidades do interior da China por menos de 300 yuans noite), o que daria hoje entre US$ 58 e US$ 73, valor que inclui só o saco de dormir. Você encararia?

De vez em quando surge algum convite para festas na Muralha, o que tudo indica que é proibido também. Eu nunca pude ir, apesar de achar que sempre haverá uma próxima vez. Sinceramente, achei a Grande Muralha (长城 - chang cheng) muito mais fascinante nos livros do que ao vivo. Não que não seja legal e embasbacante, de forma alguma, é lindo, expressivo, impressionante. Fui só uma vez visitar uma parte bem conservada, num dia 31 de dezembro, congelantemente frio, recém-chegada na China. Não sou da turma que ficou horas caminhando para cima e para baixo, nem fiz o que os chineses disseram que era importante: andar quilômetros para ter a verdadeira experiência. Eu batia o queixo de tanto frio, tava com tanta roupa que era bem difícil caminhar, cansei. Foi legal, mas não sinto necessidade nenhuma de caminhar muito por lá de novo, pelo menos não neste lugar que eu visitei. Vai saber, hiking não é comigo.


É claro que se um dia você vier à China, TEM que ver de perto esta grandiosa construção militar de mais de 8 mil quilômetros de extensão, que precisou da mão-de-obra de mais um milhão de chinesinhos (um quarto deles morreu no processo), e cuja construção começou 220 anos antes de Cristo. O que não significa que todos os tijolinhos que você verá são desta época. A muralha foi restaurada várias vezes durante a história e agora, claro, algumas partes são completamente voltadas ao turismo. E claro, agora você sabe que dá para acampar. Eu não pagaria para acampar, mas se você quiser entrar na onda da gringaida, prepare o bolso e agradeça por não entender mandarim, para não saber dos protestos chineses contra os laowais que não respeitam o grande símbolo da China.


Para ir à Muralha da China saindo de Beijing

Estas são algumas dicas para ir a alguns trechos mais conhecidos da Grande Muralha. Você também pode contratar uma agência para ir, ou chamar um táxi no hotel onde estiver hospedado. É bem possível que você tenha que barganhar o valor, que não vai sair por muito menos que 500 yuans pelo dia de passeio. Se você estiver com um grupo de três ou quatro pessoas, pode valer a pena. Mas se quiser se aventurar solito, toma nota:


Badalin (八大林长城)


Aberto das 6h30 às 18h30
Telefone: 69121737
Entrada: entre 40 e 45 yuans (dependendo da época do ano)
Como chegar: É a parte mais fácil da Grande Muralha para ir. Os ônibus turísticos saem todos os dias de Qianmen (前门) a partir das 8h. Por 90 yuans você compra no local as passagens de ida e volta e entrada para a Muralha. Uma dica é chegar bem cedo, por volta das 7h30, ou mais tarde, às 10h30. Os ônibus saem conforme forem enchendo até às 11h. Você também pode pegar o ônibus número 2, que sai da estação de trem de Beijing ( 北京站). Em Deshengmen (德胜门) é possível pegar a linha 919, que é uma linha comum. Para Badalin também é possível ir de trem. O trem, número 6427, sai da Estação Norte (北京北站) às 10h. Para voltar, ele sai da estação de Badalin às 14h30 e chega de volta em Beijing às 17h.


Mutianyu (慕田峪长城)

Aberto das 7h às 18h30
Entrada: 35 yuans, 17,50 yuans para estudantes
Telefone: 61626505 ou 61626022
Como chegar: Durante os finais de semnana e feriados, na estação de ônibus de Xuanwumen (宣武门) você vai pegar a linha turística número 6, que vai direto para Mutianyu. A passagem custa 30 yuans. Outra opção é pegar na ônibus na estação central de Dongzhimen (东直门), as linhas número 916 ou 936 até o Centro Internacional de Conferências de Huairou e trocar para o micro-ônibus que vai até Mutianyu. Cada uma das passagens vai custar cerca de 30 yuans.

Simatai (司马台长城)

Aberto das 8h às 17h
Entrada: 40 yuans, 20 yuans para estudantes
Telefone: 69031051
Como chegar: Aos finais de semana, 8h30, você pode pegar o ônibus que sai de Qianmen (前门), as passagens, ida e volta, saem por 95 yuans e o ônibus retorna de Simantai por volta das 15 horas. Outra opção é pegar o ônibus em Dongzhimen (东直门), a linha número 980 até a estação Minyu (não se assuste, você levará 1h30 para chegar lá e a passagem custa 15 yuans). Descendo na estação em Minyu, você pegará outro ônibus, este sim, até Simantai. O percurso levará mais uma hora e custará outros 15 yuans.

As fotos da Grande Muralha que ilustram o post foram tiradas na seção Badalin, quando fui lá no dia 31 de dezembro de 2007

*Laowai - 老外 - estrangeiro

11 de ago de 2009

O que esperar de uma produção sino-nipo-brasileira? (e a lenda de Yugong Yishan)

Hoje recebemos do sempre antenadíssimo Amilton o convite para assistir Plastic City no domingo. O filme, de 2008, é uma produção conjunta entre China, Brasil e Japão, é falado em cinco idiomas e dirigido por Yu Likwai.

A exibição vai ser no no Yugong Yishan, clube muito legal, palco para bandas da cena underground de Beijing e também de projetos culturais de arte e cinema. Claro que a exibição não conta com nenhum tipo de aprovação especial do governo. Isso faz da ocasião ainda mais bacana. No Japão, o longa estreiou em março deste ano e no Brasil eu não tenho ideia.

Hoje quando fui pesquisar sobre o filme fiquei meio cabreira. Os comentários não são dos mais animadores. Lendo a sinopse do filme não dá para desconfiar muito:

"Plastic City" é um filme ambientado no tradicional bairro da Liberdade, em São Paulo. O filme tem como protagonista a imensa comunidade oriental que se estabeleceu na cidade ao longo dos anos de imigração e explora a relação entre o pai "Yuda" e o filho "Kirin".

Até aí tudo bem. Mas olhando mais por aí... olha só:

“(..)o filme conta a história de Kirin, um filho de japoneses que é adotado por um mafioso chinês quando seus pais são barbaramente assassinados na Floresta Amazônica. O velho Yuda é um contrabandista decadente. Envolvidos em seus negócios escusos, estão gente simples e políticos poderosos. Traído por peixes-grandes e rivalizando com outros marginais, Kirin entra no conflito para defender o pai de criação.”

Meio estranho, né? Mas vou dar um crédito ao filme e vou inclusive resistir à tentação de assistí-lo antes, online, dica da Jana. Claro, se você quiser, olha aqui, mas não me conta nada. Na segunda-feira que vem eu volto para contar como foi.

A lenda chinesa Yugong Yishan (愚公移山)

"Yugong Yishan", o nome do clube onde será exibido o longa, se refere a uma lenda chinesa, que conta a história de um homem tentou mover uma montanha sozinho. Eu acho tudo a ver com o que faz o bar. Dá uma lida na história completa e depois me diz se concorda comigo:

Há muito tempo atrás, havia uma grande montanha, chamada Tai Ying, e um homem chamdo Yu. A montanha separava Yu do povoado mais próximo, fazendo com que, todos os dias, Yu precisasse caminhar muitos quilômetros a mais contornando a montanha para chegar ao povoado.

Um belo dia Yu decidiu que ia tirar a montanha Tai Ying dali.

Ele chegou em casa e chamou o filho e o neto e disse: "Eu vou mover Tai Ying". A família inteira comemorava, quando o filho perguntou onde Yu pretendia colocar a montanha. "Eu vou jogá-la no mar". A família comemorou ainda mais e prometeu ajudar na empreitada.

Mover montanhas é uma tarefa difícil e a montanha Tai Ying não foi exceção. Ano após ano, apenas uma ínfima parte da montanha havia sido jogada no mar.

Um dia, um homem no povoado riu de Yu, dizendo que seu sonho era ingênuo, que ele era um velho e que a Tai-Ying era "monstruosa". O nosso personagem sorriu e disse: "Você está certo, mas sua visão é muito limitada. Eu tenho filhos que terão filhos, que terão filhos. Conforme o tempo passar eu ficarei forte, enquanto a montanha enfraquecerá. Tai-Ying será movida"

Xinjiang do coração da... Kendre

Como a gente falou de Xinjiang esta semana, achei bacana mostrar o trabalho desta menina. Esta chinesinha é da província conflituosa e tentou traduzir em desenhos o carinho pela terra natal. "Um lugar que eu amo, um intocável lugar no meu coração", diz Kendre em sua página. Para expressar isto, ela usa cores e formas fortes, que resultam em uma composição muito bonita.



Curtiu?


Você também pode ver mais do trabalho dela aqui, aqui e aqui (para ir passando para os outros desenhos, ali na parte superior direita clique em 下一张)

A Expo Shanghai 2010 pode, é?

Eu juro que me irrito com isso. A censura na internet é uma das mais burras e irritantes aqui. Por mais que bloqueie, se caiu na rede já era, não tem como tirar. Se o site é bloqueado, beleza, não finge que não é, ou que não sabe do que tá falando.

Não é a primeira matéria que a Xinhua, ilustríssima agência de notícias do governo chinês, divulga com análises de sites que são bloqueados no país. Sim, falar que o Facebook não ganhou espaço entre os internautas chineses em um ano sem mencionar que a rede social é bloqueada dentro do território chinês é, no mínimo, amadorismo.

E aí que no ano que vem Shanghai vai receber a ExpoMundial e o governo está botando a maior fé (e grana) no evento, que além de prestígio pode trazer boas oportunidades de negócios e investimentos. Evento grande, internacional. Nada melhor que usar duas das maiores redes sociais do mundo para divulgar o evento: Facebook e Twitter. Coincidentemente, duas das redes sociais devidamente censuradas na internet chinesa. Lá fora o povo pode ver, seguir, adicionar, comentar. Aqui, não.

Eu concordo, em parte, com o que argumenta a Jana nesse texto. O umbiguismo nesse mundo online, que já concentra o maior número de usuários do mundo e que tem um belíssimo espaço para expansão, é comum aqui, mas não descarta a culpa (e a necessidade) do governo chinês em controlar a informação que trafega na rede chinesa. Afinal, como dá para ver no levantamento do Web 2.0, não só a China tem ferramentas desenvolvidas no próprio país que acabaram mais popularizadas, mas Coreia do Sul e Japão também. Acho que todo mundo tem espaço aqui, até mesmo os sites estrangeiros se começarem, por exemplo, a falar, literamente, a mesma língua dos chineses. E claro, se o governo liberar o acesso também ajuda bastante.

Mas "noves fora", como diz uma amiga, como a assessoria da Expo Shanghai atualiza o perfil do Facebook e Twitter? Proxy? Assim pode, é? Bom saber...

10 de ago de 2009

Urumqi, um mês atrás

Há pouco mais de um mês, a violência tomou conta de Urumqi, capital de Xinjiang. As ruas da cidade viraram palco de um sangrento conflito étnico. Até agora, ninguém soube explicar com clareza como uma manifestação pacífica terminou com a morte de 197 pessoas. A cidade ficou dividida entre os chineses da etnia Han e os Uigures, que apesar de serem maioria na província, estão em bem menor número na capital. Todas as comunicações foram cortadas, e a maioria não foi retomada até hoje. O governo rapidamente arrumou um culpado, ou melhor, uma culpada, Rebiya Kadeer, dissidente uigur que vive desde 2005 nos Estados Unidos.

O governo chinês sustenta que a maioria dos mortos é de origem han, a maioria étnica da China. Rebiya fala que mais de 10 mil uigures teriam desaparecido em uma só noite e que o governo chinês os estaria prendendo, e matando, sem divulgar.

A mídia chinesa, em chinês, faz questão de afirmar é que preciso manter o controle na região e que agora está tudo bem, os culpados estariam presos e serão julgados em breve. Pelo que já conversei por aqui, o povo está acreditando que agora não mais nada com o que se preocupar.

Muito já foi dito e escrito desde que a explosão de violência ocorreu.
Mas hoje o que eu quero é contar um pouco do que eu vi indo para lá.

No dia 10 de julho, apenas cinco dias depois do conflito, pegamos um avião rumo à Urumqi. Fomos encontrar com amigos jornalistas que estavam lá para ver o que estava acontecendo.

Tentar embarcar para uma região de conflito na China tem tudo para ser complicado, por isso achamos que poderiam nos impedir, ou pedir para checar as informações dos nossos passaportes, tentando ver de onde (e porquê) vem nosso visto. Mas não, foi muito mais tranquilo do que eu imaginei. Diferente do Tibet, não é necessária nenhuma autorização especial para ir à Região Autonôma Uigur de Xinjiang. No aeroporto, o voo marcado para as 21h40 havia sido adiantado para as 21h. Nunca vi, ou ouvi falar, de voo que foi adiantado, era no mínimo estranho. Mas logo depois descobrimos que o voo anterior não tinha saído e eles resolveram colocar todo mundo no mesmo. Ainda bem que não estávamos atrasadas.

No voo já é possível ver as diferenças: muitas mulheres usando véus, cobrindo a cabeça e algumas até o rosto, os olhos arrendondados, a cor da pele diferente. No avião conheci um senhor cazaque, que estava com a família indo para Urumqi. Ele achou o que tinha acontecido um domingo antes muito triste, mas disse que precisava ir para lá. Apesar de tudo, a coisa mais curiosa que ouvi dele foi a escalação completa da seleção brasileira de futebol da década de 70. Meu amigo cazaque gostou de saber que eu era brasileira e tentou impressionar. No final, fora isso, antes mesmo de embarcarmos, ele me disse: a cidade é boa, mas tome cuidado.

No caminho até o hotel a impressão era de que estávamos em uma cidade fantasma. Não havia gente na rua, nem carros circulando. Além de nós, só a polícia quebrava a falta de movimentação.

Fomos ao hotel onde era o QG dos jornalistas que foram cobrir o conflito. Internet, só em uma sala e via cabo. Ninguém parecia muito contente com a velocidade da transmissão de dados. Todos estavam bastante cansados. A sexta-feira havia sido particularmente movimentada, pois o governo tinha ordenado o fechamento das mesquitas e os muçulmanos começaram a se aglomerar na frente dos prédios para fazer as preces. Deu confusão, enfrentamento com a polícia, até que finalmente autorizaram a entrada em uma delas. Claro, na versão oficial, a mídia chinesa não falou nada sobre confusão, mas que as pessoas “não foram às mesquistas porque preferiram fazer as preces de casa”. Ahan, sei. A jornalistada que estava lá também sabia e corria para tentar enviar o que desse sobre o assunto. O máximo de forças foi para experimentar a Sinkiang, cerveja preta local.

A primeira coisa que vi ao sair na porta do hotel no sábado de manhã, que ficava em frente à Praça do Povo, local onde uma semana antes começou a manifestação pacífica de um grupo uigur, foi um senhor idoso discutindo com um soldado que fazia o isolamento da praça, indignado por não poder usar a calçada, que fazia parte da área isolada. Fora o forte policiamento naquele sábado, a vida parecia estar voltando ao normal na capital, as pessoas esperavam ônibus, a lojas estavam abertas e comportamentos vistos na semana, como chineses han saindo na rua armados com paus com medo de ataques, não pareciam se repetir. Entretanto, o ambiente também não era de tranquilidade.

Resolvemos ir ao bairro uigur. A entrada da Hepinnanlu, uma das principais ruas do bairro, estava fechada. Em cada esquina, dois ou três soldados distribuíam panfletos escritos em chinês e uigur, que usa o alfabeto árabe, pedindo paz entre as etnias. Carros de som transitavam pela cidade, também com mensagens nos dois idiomas, pedindo harmonia entre as etnias. A sociedade harmoniosa, sempre ela. Apesar de não ter muita gente na rua, os restaurantes e lojas estavam abertos e víamos tanto hans, quanto uigures e huis (etnia chinesa muçulmana, diferente dos uigures). Quando estávamos nos aproximando mais da parte mais uigur do bairro, uma senhora han nos parou e disse para não irmos para lá, porque era muito perigoso. Ela não acreditou quando ignoramos o conselho.

A arquitetura dos prédios é bem diferente do padrão “caixote comunista” que vemos em Beijing. O colorido das roupas, dos véus, das sacadas é encantador. E ao contrário do que advertiu a chinesa antes, não sentimos medo, ou ameaçados em nenhum momento. Nos mercados de rua as pessoas sorriam para as fotos e tentavam conversar. No resto da China, quando vê algum estrangeiro, o chinês tenta falar inglês, pensando que este é o idioma em que poderá ser compreendido. Em Urumqi, depois de ver que não falávamos uigur, a primeira reação era tentar falar o mandarim padrão conosco, o que foi bem curioso.

No mercado, as especialidades do lugar: muito melão, kaobaozi e churrasquinho de carne de ovelha. Tudo feito e vendido ali na rua, com verdadeiros açougues a céu aberto. Entramos em uma parte que parecia muito com os hutongs aqui de Beijing, porém com características muçulmanas. Lá sim, se vendia de tudo, de caneta a sapato usado, em banquinhas no chão das ruas estreitas. As lojas com eletrônicos ofereciam televisões preto e branco de 14 polegadas. O bairro uigur, onde estão as maiores mesquitas e concentração de pessoas da etnia, é bem pobre. Em alguns momentos me senti que tinha ido parar dentro das imagens de Kabul pós-guerra, as mulheres cobertas, muita pobreza e muita sujeira, o chão das casas de uma parte onde passamos, que eram meio casas meio comércio, era batido, sem nenhum tipo de revestimento.

Dentro deste labirinto, principalmente, vimos muitas crianças, muito mais do que se vê normalmente nas cidades grandes. Como pertencem a uma minoria étnica, os uigures, bem como as outras 54 minorias, são autorizados pela lei a ter o segundo filho. Crianças morenas, olhos redondos, puxados, azuis, verdes, castanhos, cabelos ruivos, loiros, pretos. Apesar da pobreza, todas sorriam e brincavam, se divertiam no seu mundinho.

Saindo desse mundo, voltando às avenidas, a tranquilidade é um pouco abandonada. A polícia já está por todos os lados e não gosta muito de ver ninguém tirando fotos. Devido à situação precária, o melhor é obedecer. E andar para o outro lado. Fomos ao Bazar Internacional de Urumqi, ponto de comércio tradicional no bairro, onde era possível ver algumas marcas do conflito, como as janelas das lojas e portas quebradas. Os nossos amigos, mesmo tendo chegado no local no meio da semana, não viram os ônibus e carros incendiados, que apareciam nas fotos da mídia chinesa. O governo foi rápido em promover a limpeza. As lojas fechadas, o exército no pátio do bazar e algumas janelas quebradas foi o máximo que vimos da violência que havia eclodido no domingo anterior.

Apesar do ambiente amistoso, sabíamos que estávamos longe de ser presenciando uma situação normal. Não haviam chineses han na rua. Como aquela senhora que nos advertiu no início, os outros também estavam com medo e deviam achar perigoso demais se aventurar por lá. Os nossos amigos visitaram os hospitais que estavam atendendo os feridos do conflito. As cenas, descreveram, eram chocantes. Pessoas completamente desfiguradas, cujo único pecado naquele momento era estar no lugar errado, na hora errada.

Já em Beijing, duas semanas depois de voltar de Urumqi, encontramos um cara uigur. Começamos a conversar, e a falar inclusive sobre o conflito e as ações tomadas pelo governo chinês. Ao escutar que éramos jornalistas, o rosto dele mudou. O olhar era de pânico, medo. Ele tinha medo que usássemos o nome ou qualquer outra referência sobre ele. Pessoas da família desse cara haviam sido presas, mesmo clamando inocência. Amigos estavam sumindo. Segundo o cara, todos os uigures correm risco e os que comentarem o assunto, mais ainda. Exatamente o que clamou Rebiya Kadeer na entrevista concedida quando ela esteve no Japão no final do mês de julho.

Para finalizar, deixo vocês com dois vídeos gravados no período em que eu estive lá e mostram um pouco do que eu vi e desse sentimento de que, no fim das contas, nada parece justo:

Tensão étnica em Xinjiang from niels dartabad on Vimeo.






Tranquilidade vigiada from Janaína Camara da Silveira on Vimeo.







Um pouco do que andaram escrevendo por aí

- Uma história com vítimas dos lados:

- Mais acusações da família de Rebiya

- Governo confirma a morte de 12 pessoas envolvidas no conflito

- Jackie Chan estava certo quando disse que os chineses precisam ser controlados?

- Notícia sobre o suposto estupro em Guangdong, motivo da manifestação que acontecia na Praça do Povo no dia conflito

- Artigo do Wall Street Journal sobre os protestos

- O New York Times criou um espaço de debate qualificado sobre o assunto

Urumqi, um mês atrás - Fotos



















9 de ago de 2009

Só esperando você?

Só eu, ou mais alguém também acha que a Gisele não tem nem ideia de que participou desta campanha publicitária deste shopping/site de compras chinês?

7 de ago de 2009

O Super Baozi

Um animação virou a sensação da semana aqui na China. Um novo super-herói entrou em ação: o Super Baozi!
Brincadeiras à parte, o vídeo está muito legal. O trabalho de Sun Haipeng é muito bom. Confere :

Falanod nisso... logo na chegada na China já me apresentaram os baozis 包子. Juro que nunca tinha comido. E de cara não gostei muito da cara da massa do pão, que é bem, bem pálida. Mas por aqui os baozis são um sucesso, você encontra em cada esquina para vender e é bem baratinho.

Eu não sou lá muito cozinheira, se algum leitor do blog quiser se aventurar nos sabores chineses, vai aí a receita:

Massa:
150g de farinha de trigo para pão
150g de farinha de trigo comum
3g de fermento para pão
4g de fermento em pó para bolo
2g de sal
20g de açúcar
15g de manteiga sem sal em temperatura ambiente
160ml de água, que deve ser adicionada aos poucos, com o cuidado para não deixar a massa muito mole

Modo de preparo:
Primeiro peneire as farinhas com o fermento. Junte os demais ingredientes até que formar uma massa uniforme. Despeje o conteúdo na mesa e sove até ficar lisa e elástica
Cubra com filme plástico e deixe descansando por 20 minutos. Prepare o recheio.

Aqui vai uma sugestãozinha. Eu gosto bastante dos recheios de carne, então... voi la!

250g de carne de porco moída
70g de espinafre picadinho
1 pedaço de gengibre de 3cm ralado
1/2 cebolinha branca ou 1/2 cebola picadinha
1 colher (sopa) de óleo de gergelim
uma pitada de sal
1/2 colher (sopa) de molho de soja
uma pitada de pimenta e outros temperos a gosto

Misture todos os ingredientes e divida em porções. Enrole como se fosse uma almôndega para facilitar na hora de preencher no pão.

Depois dos 20 minutos de descanso pegue a massa e divida em dez porções. Faça bolinhas e deixe descansando por 10 minutos cobertos com um pano de prato úmido, bem torcido. Unte a mesa com farinha. Abra as bolinhas na mesa com um rolo até ficar com 12cm de diâmetro. Coloque o recheio no centro e feche puxando um pouquinho da massa para cima. Vá pegando uma porção da massa ao lado e puxando como se fossem pétalas. No final, dê uma leve torcidinha e coloque sobre um pedaço de papel manteiga cortado.
Faça o mesmo com as demais bolinhas. Cubra com pano e deixe fermentar novamente em lugar abafado por 20 minutos.

Coloque água numa grande panela para banho-maria e leve ao fogo. Quando terminar o descanso da massa, ajeite os bolinhos sobre a grade da panela, deixando um espaço entre eles porque crescem durante o cozimento.
Se você tiver as panelas chinesas próprias para cozimento à vapor feitas com bambu, é só tampar e deixar 10 minutos. Se você usar uma panela comum, envolva a tampa com pano de prato para que água acumulada não caia em cima dos bolinhos. Depois é só tampar e deixar cozinhar por 10 minutos.
Sirva quentinho!

Se alguém tentar, me escreve para contar se deu certo, tá?

China Mobile, você conhece?

Estava eu navegando no Meio Bit e vi o post sobre a pesquisa anual realizada pela Millward Brown Optimor, que foi divulgada agora, com o ranking das 100 marcas mais valiosas do mundo.

Tudo bem, pode ser desantenamento meu, mas me surpreendeu encontrar a China Mobile em primeiro lugar entre as empresas de telefonia, com a marca avaliada em mais de US$ 61 bilhões.

Aqui na China, esta é a minha companhia, cujo nome em chinês eu sempre esqueço na hora de comprar um cartão telefônico. Pois, depois disto que descobri que a China Mobile Communications Corporation, ou 中国移动通信 Zhōngguó Yídòng Tōngxìn, é a maior empresa de telecomunicações do mundo, com mais de 450 milhões de clientes. Compreensível, já que é uma estatal chinesa e tem uma fatia de 67% do mercado do país. E você lembra que este é um país de mais de 1,3 bilhão de habitantes, né? Claro, o domínio da China Mobile é chinês, mas em 2008 a empresa adquiriu a Paktel, do Paquistão, por $460 milhões segundo o Financial Times.

Não sei vocês, mas pra mim este é mais um sinal claro do espaço que a China conquista na economia. Nesse caso, não só como grande chão de fábrica do mundo, mas agora de maneira qualificada, afinal a valorização da marca agrega um valor competitivo inestimável às empresas.

Um perfilzinho da China Mobile:

China Mobile Communications Corp.
http://www.chinamobile.com/en
Fundação: 1997
Empresa Estatal
Presidente: Wang Jianzhou
Rendimento: US$33.60 billion (2007)
Cotação: Bolsas de Hong Kong e Nova York
Negócio: Telecomunicações, telefonia móvel, internet, 3G
Número de empregados: 119 mil (2007)
Subsidiárias: China Tietong e Paktel (do Paquistão)

5 de ago de 2009

Um site para entender o que eles tão pensando (ou pelo menos vendo na rede)

囧囧!Este caractere é quase autoexplicativo: surpresa, espanto! É com ele que o site chinaSMACK se apresenta e que define bem o seu próprio objetivo, que é decifrar, com bom humor, o que espanta e supreende os internautas chineses, que os faz comentar e espalhar por aí, para o público que não fala mandarim. O chinaSMACK completou um ano em julho deste ano e arrebata acessos entre os estrangeiros que moram dentro e fora da China, mostrando um pouco do que o internauta chinês está falando, vendo ou compartilhando na web.

Mesmo não dando espaço para conteúdo político, Fauna, criadora do site, prefere se preservar e não falar muito sobre ela mesma. Uma das fortes críticas que ela sofre de outros chineses é que mostrando o que acontece, ela faz com que o povo da China "perca a face" diante dos estrangeiros. "Perder a face", ou mianzi 面子, é um conceito extremamente chinês, herança confucionista muito presente na cultura e nas relações que, resumindo bastante, é o cuidado extremo com a reputação, familiar e pessoal, que deve ser mantida a qualquer custo. Por isso esta chinesinha de Shanghai prefere não dar referências sobre ela, para que a vida offline não sofra os ataques em mandarim que ela sobre online. "É só para me preservar um pouco. Tento evitar ao máximo as pessoas que fazem este tipo de crítica. É ridículo", diz ela, sem perder nem a face, nem o bom humor.

No início ela achava que dividir em inglês o que se comentava em chinês seria uma maneira bacana de praticar o idioma. Um ano depois, ela comemora as mais de 270 mil visitas por mês e os quase 4 mil assinantes. "Isto mostra que começamos do zero para nos tornarmos um conhecido site em inglês sobre a China", conclui. A maior parte do público do site acessa, em primeiro lugar, dos Estados Unidos, seguido por China, Canadá, Reino Unido e Cingapura. Mas mesmo o Brasil aparece nesta lista, junto com dezenas de outros países.

Mas vamos falar sobre o site, que é bem legal. O chinaSMACK não se limita a simplesmente traduzir histórias que estão sendo vistas e discutidas pelos chineses. A Fauna se puxa e publica também comentários dos internautas chineses sobre o assunto, pra que os leitores tenham uma ideia melhor de como os internautas daqui pensam e reagem. "Isso ajuda os estrangeiros a compreender uma parte da China. Dá para ver que tem diferenças, mas sociedade moderna chinesa e os estrangeiros são mais iguais do que diferentes", opina.

As semelhanças são perceptíveis. Nos vídeos "virais", fotos que se espalham rapidamente, dá para ver que, afinal, os gostos não são mesmo diferentes. Nem quando o assunto é sério. Mesmo tentando não colocar conteúdo diretamente político ou que pise nos calos do governo, através dos comentários traduzidos dá para perceber a ironia e a indignação com a censura na rede. Quem pensa que o povo chinês é simplesmente "cordeirinho" do governo ou aceita tudo sem contestar, consegue mudar de ideia quando lê as brincadeiras sobre a "sociedade harmoniosa". Mesmo que não haja um movimento organizado, o descontentamento está ali expresso, nem que seja nas entrelinhas.



Outra coisa bacana é o glossário, que também dá uma mão para aproximar chineses e estrangeiros. Lá a Fauna reuniu termos, expressões, siglas e gírias que são usadas pelos internautas chineses. Com isso, dá para compreender melhor, ver o que é engraço ou ofensivo no mandarim utilizado na internet. Quem está aqui na China, tem a vida offline também facilitada, já que muito da linguagem oral, principalmente mais jovem, está bem distante dos dicionários.


O projeto para este ano é crescer. A Fauna, mesmo com outro emprego, dispõe de três a seis horas por dia traduzindo notícias, vídeos, comentários e atualizando o chinaSMACK. "Seria ótimo ter mais colaboradores. O ideal seria poder pagar as pessoas para fazer isto, mas o site não gera muita renda", conta ela. Por enquanto não tem mais nenhum colaborador fixo, mas ela já contou com a ajuda de outros chineses e de estrangeiros com grande conhecimento de mandarim. Se alguém aí quiser colaborar, ou conhece alguém que queira, escreve para a Fauna. A única coisa que ela pede é que sempre sejam incluídos os comentários dos internautas chineses sobre o assunto, que é uma parte importante do trabalho do site.

Jiong Jiong!
囧囧 Este caractere supersimples não andava mais nem sendo usado na China. Com a popularização da internet, ele voltou renovado e caiu no gosto dos internautas, que começaram a ver nele praticamente um emoticon para expressar admiração. "囧囧 representa bem o chinaSMACK. E é engraçadinho", completa Fauna com bom humor.

4 de ago de 2009

In the mood for China

-5ºC na rua. Um nevoeiro que não dava para ver nada. Caracteres por toda a parte. Completamente analfabeta. Cansaço. Ansiedade. Foi assim que eu cheguei na China.

Eu não lembro de escutar ninguém falando chinês no voo, não lembro de ter a opção no cardápio de comida chinesa. Lembro da paisagem montanhosa três horas antes de aterrissar, lembro de ver os primeiros caracteres no formulário de entrada no país. Não lembro da fila na imigração, não lembro do tempo que esperei a bagagem. Lembro que tinha abraço me esperando e plaquinha com o meu nome.

A partir daí, tudo é novidade. Morar em outro país é sempre uma experiência maravilhosa, até mesmo quando é ruim. Morar na China, é uma experiência única, distante de todos os sonhos mais populares. Não é um país de primeiro mundo. Não é um país democrático. Não tem um idioma que você vai aprender a ler quase naturalmente. Não é um destino popular onde você vai ter momentos em que vai estar tão rodeado de outros brasileiros que vai sentir, por um momento, que nem saiu do Brasil.

Quando eu cheguei aqui não sabia bem o que esperar. O gigante asiático nem parecia tão grande assim só olhando no atlas. A evolução, o crescimento econômico, a conquista do direito de sediar uma olimpíada, a pujança nunca esteve exatamente no meu imaginário. As roupinhas iguais do tempo da Revolução Cultural, o idioma incompreensível, a censura, o comunismo, o massacre na praça, o trabalho infantil e a conta da bala para a família em caso de pena de morte faziam mais parte da minha imaginação. Eu realmente não sabia o que era esse lugar onde vim parar.

Com as novidades saltando aos olhos, o que mais se quer é descobrir. A adaptação no inverno pode ser mais complicada. O cinza ainda comum nos prédios e muros de Beijing parecem ainda mais sombrios no inverno. O clima seco corta, castiga, bem como a saudade. Mas era um período de adaptação e o que mais se quer é se sentir feliz, ou, pelo menos, adaptado. Começa o período das buscas, do conhecer o lugar, das muitas leituras. Como eu podia saber tão pouco dessa história? Como pode o resto do mundo todo pensar isso?

Para se adaptar é necessário se integrar e essa tarefa nessa sociedade milenar parece ao mesmo tempo fácil e impossível com o passar dos dias. O povo chinês sorri muito, sorri os dentes que não tem, sorri com o cigarro no canto da boca, sorri depois que cospe. Aqui é o único lugar em que o sorriso amarelo é bom, faz a gente se sentir bem-vindo, querido, estimado. As primeiras palavras ditas em mandarim são sempre alvo de elogios por parte dos chineses. Talvez eles tenham ideia de como é difícil aprender a pronunciar todos aqueles fonemas absurdos e façam isso para dar uma forcinha. Aí você pensa: “consegui me adaptar”.

As novidades não estão apenas nas cores novas, na nova escrita, no novo idioma ou no novo povo. As novidades culinárias são, muitas vezes, as mais torturantes para um estrangeiro na China. A lógica da comida e das refeições são diferentes das nossas, tudo tem um porquê, tudo vai equilibrar algo no funcionamento pleno do organismo, o excesso de óleo, pimenta, arroz, e até a falta de sabor de alguns pratos tem uma razão. Depois de não passar com trabalho com isso, você pensa: “consegui me adaptar”.

Com o tempo, a saudade doída é abrandada e você acaba algumas vezes conversando mais com as pessoas do que quando estava ao lado delas. Quanto o mais o tempo passa, mais diminui o número de pessoas que você queria ali, do seu lado mesmo. Muitos amigos, conhecidos, acabam na lembrança nostálgica, a saudade gostosa. Não dói, você não precisa ter perto, mas é bom lembrar e ter histórias pra contar. Quando isso acontece, você pensa: "consegui me adaptar".

Todos aqueles estereótipos que a gente traz na mala quando vem para na China, vão cansando com o tempo. A primeira vez que se visita o Brasil depois de mudar pra cá é de enlouquecer. "Como é morar na China?", "Como tu te vira com a comida?", "O que tu come?" " Já comeu grilo, gafanhoto, bicho-da-seda?", "Já fala, lê e escreve chinês fluente?", "Eles têm mesmo pinto pequeno?" são perguntas que a gente escuta 89.271.023.237.783.642 vezes. São só essas as curiosidades? Só isso que foi transmitido e retransmitido durante a Olimpíada, único momento em que a mídia brasileira realmente deu bola pra China? O pior é ver brasileiro falando com desdém, como se aqui fosse um lugar pré-histórico, perdido no tempo e rodeado só de pobreza. Ou como se o comunismo estivesse presente em tudo, pintando a China de 2009 como o que era na década de 70, ou como o que é a Coreia do Norte. Brasileiro que não vê o próprio Brasil, as próprias misérias. Cansa.

Com o tempo o que também vem são os amigos. Amigos que vivenciam todas as mudanças pelas quais a gente passa, amigos que são parte deste povo novo que a gente tenta entender. A gente acha que é aceito pelos chineses. A gente até acredita que criou amizades com a mesma profundidade que tem o nosso próprio povo. É, com o tempo vê que isso é só ilusão. Apesar da simpatia, do carinho, da dificuldade em dizer não, um chinês nunca vai conseguir ser tão amigo, tão irmão. E é o momento em que a gente percebe que só adaptação não basta. A diferença cultural vai, em algum momento, criar uma barreira. Você sempre será o laowai, o estrangeiro. Mesmo nascendo aqui, crescendo aqui, falando, lendo e escrevendo chinês. Mesmo que este seja o único país que você entenda como lar, isso sempre existirá. Ruim? Diferente.

A lógica (ou a falta de) chinesa tem dias que te deixa de cabelo em pé. A censura faz com que duas vezes por semana, pelo menos, você queira ir embora. Trabalhar e conviver com chineses muitas vezes faz com que a sua paciência seja testada ao limite máximo. Aqui tem jeitinho. Aqui la garantia soy yo. Aqui as relações são na base do guanxi (e do baijiu). Aqui a cerveja é quente. Aqui eles tomam sopa no café da manhã. Aqui tem gente com medo de estrangeiro. Aqui às vezes a gente se sente no meio de uma piada de português. Aqui o povo não vê diferença entre o governo, o país e o povo. Aqui os estrangeiros também cansam, com seus preconceitos contra o povo que os recebe. Mas pergunta se a gente quer ir embora?

O viés enlouquecedor é inversamente proporcional ao encantador. Não só pelo povo. Não só pelas belezas naturais. A China tem uma mágica, um feitiço. Quem vem pra cá acaba vivendo uma relação de amor e ódio, como a mais avassaladora das paixões.Essa é mais uma das coisas que não lógica. Eu não sei se posso encher a boca para dizer que sei o que é este país. Eu continuo achando atrevimento quem diz que sabe e começa a ditar regras, como se fosse possível enquadrar 1,3 bilhão de pessoas. Tem dias que eu quero ir embora, porém agora, no momento em que eu estou pensando e me preparando para isso, vejo o quanto aprendi e o quanto continuo com vontade de China. Talvez agora você não entenda, mas se um dia passar por aqui e se abrir, um pouquinho que seja, com certeza vai entender.