13 de out de 2009

Agacha aí!

Os banheiros aqui na China sempre acabam, de um jeito ou de outro, surgindo entre as conversas que nós expatriados moradores do gigante asiático temos com nossos conterrâneos e com os recém-chegados à terra de Mao. Sim, eu já tava sabendo que seria necessário um longo processo de adaptação aos banheiros quando cheguei por aqui. No fim das contas, se revelou menos horrível do que eu pensava.

Se levar em conta o fator higiene, os banheiros são ótimos, principalmente os públicos, já que nenhuma parte do corpo da criatura entrará em contato com o vaso sanitário e a descarga. Há quem levante o problema da falta de prática para acabar com a grande utilidade sanitária do vaso no chão: quem não está bem acostumado acaba fazendo xixi no pé muitíssimas vezes. Arghssss!!!!

O que eu tive que descobrir, de maneiras nem sempre ortodoxas, é que se não pode com eles, junte-se a eles. Fazer xixi acaba se tornando comum, porque é impossível segurar um dia inteiro (ou uma noite regada a cervejinhas) até chegar em casa. Mas e o famoso número 2 como é que fica? Queridos, a oportunidade faz o ladrão. Deixando o nojinho de lado, com o tempo é possível achar bem confortável fazer as necessidades assim, de cócoras. Segundo os médicos é até melhor, pois respeita a anatomia do corpo humano. Tudo bem, não precisa gostar, mas não leve tudo como se fosse um tipo de tortura. Agacha. Mira. Faz. Limpa. Sem sofrimento.

Uma amiga, na época recém-chegada, estava feliz e encantada com Beijing, curtindo de tudo um pouco. Comentou que, inclusive, já tinha se adaptado aos banheiros, dizendo não tinha mistério. "Que rápido e que bom. Adoro quem não sofre com trivialidades", comentei. Grande engano. Numa dessas saídas da vida, a bexiga começou a avisar que era hora de visitar o 厕所 (cesuo, banheiro). Fomos as duas até o mais próximo. Era um daqueles bem tosquinhos, sem divisão entre as privadas no chão. Tirei a minha calça e fiquei lá de cócoras, cotovelos apoiados no joelho esperando o grande momento. Minha amiga veio para a privada ao lado da minha, baixou a calça e só dobrou o corpo pra frente, deixando as pernas completamente estendidas. "Guria, o que tu pensa que tá fazendo??", gritei na hora, antes que eu começasse a tomar um banho com o xixi alheio. "Não é assim que faz??". "Claro que não" "Ah, mas eu não sei abaixar". Bom, não quis saber onde ela aprendeu a fazer tiro ao alvo com xixi. 

Falando em banheiro público, por aqui eles podem ser bem difíceis. Para mim é a materialização da falta de consciência entre o público e o privado do povo chinês. Para começar, banheiro em casa é coisa de poucas décadas e em algumas áreas o banheiro da vizinhança ainda é coletivo. Não é difícil, quando se está perto de algum hutong (http://en.wikipedia.org/wiki/Hutong) ver o pessoal de pijama na rua indo no banheiro, enquanto você está passando para ir a um restaurante. Uma outra amigona conta sempre uma história que ilustra bem esta distorção entre os conceitos ocidental e chinês de público e privado. Um belo dia ela entrou no banheiro e lá estavam duas senhoras de pijamão: uma na porta, jogando conversa fora, e a outra de cócoras, mandando ver no número dois. O banheiro não tinha divisórias e enquanto uma delas fazia uma força para largar um barro (sim, com todos os efeitos sonoros possíveis incluídos), as duas ficavam ali, de pijamão trovando no banheiro público. Minha amiga se virou, voltou para onde estava e profetizou: "Tudo bem que eu não quero voltar para o Brasil, mas nem em 30 anos morando aqui vou me acostumar com isso". O que para nós é desagradável, uma invasão sem medida de privacidade, para eles é simplesmente normal.

Agora, este tipo de banheiro não é privilégio da China e outros países da Ásia. Sim, isso é banheiro turco (http://en.wikipedia.org/wiki/Squat_toilet), ou grego, e até na Itália tive que me agachar para fazer xixi em um restaurante bem bacana. Isso mesmo, o Velho Mundo ainda tem banheiro no chão. Ainda lembro a minha cara de surpresa quando abri a porta do banheiro e tive que olhar pro chão para achar o sanitário. Uma italiana viu minha cara de espanto e tascou: "Banheiro turco. Bem comum por aqui". Eu hein....
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A foto que ilustra este post foi surrupiada do Sinosplice.com. É uma placa de banheiro publico aqui de Beijing, uma das mais inteligentes e menos vexatórias para indicar o tipo de vaso sanitário que eu já vi por essas bandas.



Um comentário:

  1. hahaha, eu nao sabia disso, eu sabia que isso já tinha existido, mas nao que ainda existia! hahaha
    Vou ter que ahcar um desses pra ver qual a sensacao! Aqui no velho mundo (lê-se Alemanha) é comum ter dois banheiros em casa, um é o toilete, onde só existe o vaso e a pia e o outro Badezimmer, onde tem uma pia também e a ducha ou banheira ou os dois.
    Na holanda também vi banheiros assim, divididos.
    Beijos

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