10 de ago de 2009

Urumqi, um mês atrás

Há pouco mais de um mês, a violência tomou conta de Urumqi, capital de Xinjiang. As ruas da cidade viraram palco de um sangrento conflito étnico. Até agora, ninguém soube explicar com clareza como uma manifestação pacífica terminou com a morte de 197 pessoas. A cidade ficou dividida entre os chineses da etnia Han e os Uigures, que apesar de serem maioria na província, estão em bem menor número na capital. Todas as comunicações foram cortadas, e a maioria não foi retomada até hoje. O governo rapidamente arrumou um culpado, ou melhor, uma culpada, Rebiya Kadeer, dissidente uigur que vive desde 2005 nos Estados Unidos.

O governo chinês sustenta que a maioria dos mortos é de origem han, a maioria étnica da China. Rebiya fala que mais de 10 mil uigures teriam desaparecido em uma só noite e que o governo chinês os estaria prendendo, e matando, sem divulgar.

A mídia chinesa, em chinês, faz questão de afirmar é que preciso manter o controle na região e que agora está tudo bem, os culpados estariam presos e serão julgados em breve. Pelo que já conversei por aqui, o povo está acreditando que agora não mais nada com o que se preocupar.

Muito já foi dito e escrito desde que a explosão de violência ocorreu.
Mas hoje o que eu quero é contar um pouco do que eu vi indo para lá.

No dia 10 de julho, apenas cinco dias depois do conflito, pegamos um avião rumo à Urumqi. Fomos encontrar com amigos jornalistas que estavam lá para ver o que estava acontecendo.

Tentar embarcar para uma região de conflito na China tem tudo para ser complicado, por isso achamos que poderiam nos impedir, ou pedir para checar as informações dos nossos passaportes, tentando ver de onde (e porquê) vem nosso visto. Mas não, foi muito mais tranquilo do que eu imaginei. Diferente do Tibet, não é necessária nenhuma autorização especial para ir à Região Autonôma Uigur de Xinjiang. No aeroporto, o voo marcado para as 21h40 havia sido adiantado para as 21h. Nunca vi, ou ouvi falar, de voo que foi adiantado, era no mínimo estranho. Mas logo depois descobrimos que o voo anterior não tinha saído e eles resolveram colocar todo mundo no mesmo. Ainda bem que não estávamos atrasadas.

No voo já é possível ver as diferenças: muitas mulheres usando véus, cobrindo a cabeça e algumas até o rosto, os olhos arrendondados, a cor da pele diferente. No avião conheci um senhor cazaque, que estava com a família indo para Urumqi. Ele achou o que tinha acontecido um domingo antes muito triste, mas disse que precisava ir para lá. Apesar de tudo, a coisa mais curiosa que ouvi dele foi a escalação completa da seleção brasileira de futebol da década de 70. Meu amigo cazaque gostou de saber que eu era brasileira e tentou impressionar. No final, fora isso, antes mesmo de embarcarmos, ele me disse: a cidade é boa, mas tome cuidado.

No caminho até o hotel a impressão era de que estávamos em uma cidade fantasma. Não havia gente na rua, nem carros circulando. Além de nós, só a polícia quebrava a falta de movimentação.

Fomos ao hotel onde era o QG dos jornalistas que foram cobrir o conflito. Internet, só em uma sala e via cabo. Ninguém parecia muito contente com a velocidade da transmissão de dados. Todos estavam bastante cansados. A sexta-feira havia sido particularmente movimentada, pois o governo tinha ordenado o fechamento das mesquitas e os muçulmanos começaram a se aglomerar na frente dos prédios para fazer as preces. Deu confusão, enfrentamento com a polícia, até que finalmente autorizaram a entrada em uma delas. Claro, na versão oficial, a mídia chinesa não falou nada sobre confusão, mas que as pessoas “não foram às mesquistas porque preferiram fazer as preces de casa”. Ahan, sei. A jornalistada que estava lá também sabia e corria para tentar enviar o que desse sobre o assunto. O máximo de forças foi para experimentar a Sinkiang, cerveja preta local.

A primeira coisa que vi ao sair na porta do hotel no sábado de manhã, que ficava em frente à Praça do Povo, local onde uma semana antes começou a manifestação pacífica de um grupo uigur, foi um senhor idoso discutindo com um soldado que fazia o isolamento da praça, indignado por não poder usar a calçada, que fazia parte da área isolada. Fora o forte policiamento naquele sábado, a vida parecia estar voltando ao normal na capital, as pessoas esperavam ônibus, a lojas estavam abertas e comportamentos vistos na semana, como chineses han saindo na rua armados com paus com medo de ataques, não pareciam se repetir. Entretanto, o ambiente também não era de tranquilidade.

Resolvemos ir ao bairro uigur. A entrada da Hepinnanlu, uma das principais ruas do bairro, estava fechada. Em cada esquina, dois ou três soldados distribuíam panfletos escritos em chinês e uigur, que usa o alfabeto árabe, pedindo paz entre as etnias. Carros de som transitavam pela cidade, também com mensagens nos dois idiomas, pedindo harmonia entre as etnias. A sociedade harmoniosa, sempre ela. Apesar de não ter muita gente na rua, os restaurantes e lojas estavam abertos e víamos tanto hans, quanto uigures e huis (etnia chinesa muçulmana, diferente dos uigures). Quando estávamos nos aproximando mais da parte mais uigur do bairro, uma senhora han nos parou e disse para não irmos para lá, porque era muito perigoso. Ela não acreditou quando ignoramos o conselho.

A arquitetura dos prédios é bem diferente do padrão “caixote comunista” que vemos em Beijing. O colorido das roupas, dos véus, das sacadas é encantador. E ao contrário do que advertiu a chinesa antes, não sentimos medo, ou ameaçados em nenhum momento. Nos mercados de rua as pessoas sorriam para as fotos e tentavam conversar. No resto da China, quando vê algum estrangeiro, o chinês tenta falar inglês, pensando que este é o idioma em que poderá ser compreendido. Em Urumqi, depois de ver que não falávamos uigur, a primeira reação era tentar falar o mandarim padrão conosco, o que foi bem curioso.

No mercado, as especialidades do lugar: muito melão, kaobaozi e churrasquinho de carne de ovelha. Tudo feito e vendido ali na rua, com verdadeiros açougues a céu aberto. Entramos em uma parte que parecia muito com os hutongs aqui de Beijing, porém com características muçulmanas. Lá sim, se vendia de tudo, de caneta a sapato usado, em banquinhas no chão das ruas estreitas. As lojas com eletrônicos ofereciam televisões preto e branco de 14 polegadas. O bairro uigur, onde estão as maiores mesquitas e concentração de pessoas da etnia, é bem pobre. Em alguns momentos me senti que tinha ido parar dentro das imagens de Kabul pós-guerra, as mulheres cobertas, muita pobreza e muita sujeira, o chão das casas de uma parte onde passamos, que eram meio casas meio comércio, era batido, sem nenhum tipo de revestimento.

Dentro deste labirinto, principalmente, vimos muitas crianças, muito mais do que se vê normalmente nas cidades grandes. Como pertencem a uma minoria étnica, os uigures, bem como as outras 54 minorias, são autorizados pela lei a ter o segundo filho. Crianças morenas, olhos redondos, puxados, azuis, verdes, castanhos, cabelos ruivos, loiros, pretos. Apesar da pobreza, todas sorriam e brincavam, se divertiam no seu mundinho.

Saindo desse mundo, voltando às avenidas, a tranquilidade é um pouco abandonada. A polícia já está por todos os lados e não gosta muito de ver ninguém tirando fotos. Devido à situação precária, o melhor é obedecer. E andar para o outro lado. Fomos ao Bazar Internacional de Urumqi, ponto de comércio tradicional no bairro, onde era possível ver algumas marcas do conflito, como as janelas das lojas e portas quebradas. Os nossos amigos, mesmo tendo chegado no local no meio da semana, não viram os ônibus e carros incendiados, que apareciam nas fotos da mídia chinesa. O governo foi rápido em promover a limpeza. As lojas fechadas, o exército no pátio do bazar e algumas janelas quebradas foi o máximo que vimos da violência que havia eclodido no domingo anterior.

Apesar do ambiente amistoso, sabíamos que estávamos longe de ser presenciando uma situação normal. Não haviam chineses han na rua. Como aquela senhora que nos advertiu no início, os outros também estavam com medo e deviam achar perigoso demais se aventurar por lá. Os nossos amigos visitaram os hospitais que estavam atendendo os feridos do conflito. As cenas, descreveram, eram chocantes. Pessoas completamente desfiguradas, cujo único pecado naquele momento era estar no lugar errado, na hora errada.

Já em Beijing, duas semanas depois de voltar de Urumqi, encontramos um cara uigur. Começamos a conversar, e a falar inclusive sobre o conflito e as ações tomadas pelo governo chinês. Ao escutar que éramos jornalistas, o rosto dele mudou. O olhar era de pânico, medo. Ele tinha medo que usássemos o nome ou qualquer outra referência sobre ele. Pessoas da família desse cara haviam sido presas, mesmo clamando inocência. Amigos estavam sumindo. Segundo o cara, todos os uigures correm risco e os que comentarem o assunto, mais ainda. Exatamente o que clamou Rebiya Kadeer na entrevista concedida quando ela esteve no Japão no final do mês de julho.

Para finalizar, deixo vocês com dois vídeos gravados no período em que eu estive lá e mostram um pouco do que eu vi e desse sentimento de que, no fim das contas, nada parece justo:

Tensão étnica em Xinjiang from niels dartabad on Vimeo.






Tranquilidade vigiada from Janaína Camara da Silveira on Vimeo.







Um pouco do que andaram escrevendo por aí

- Uma história com vítimas dos lados:

- Mais acusações da família de Rebiya

- Governo confirma a morte de 12 pessoas envolvidas no conflito

- Jackie Chan estava certo quando disse que os chineses precisam ser controlados?

- Notícia sobre o suposto estupro em Guangdong, motivo da manifestação que acontecia na Praça do Povo no dia conflito

- Artigo do Wall Street Journal sobre os protestos

- O New York Times criou um espaço de debate qualificado sobre o assunto

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